segunda-feira, 18 de maio de 2009

LITURGIA É QUE É CONTRAVENÇÃO!


É engraçado que as vezes, tudo muda e ninguém parece perceber.

Hoje reli um tópico de uma comunidade sobre BDSM em que alguém (por quem tenho grande simpatia, cabe dizer) reclamava os seus direitos de não ser litúrgica. Quem tem boa imaginação, poderia quase vê-la ofegante,rasgando as roupas em desespero, gritando que achava liturgia uma grande babaquice. E que estava cansada de ser julgada como a “ovelha negra” do SM, só porque gostava de cenas publicas feitas sempre em um contexto de absoluta descontração. Para ela, pareceu-me, BDSM é algo simples e prático: Está com vontade? Vá e faça! Não está? Continue tomando sua cerveja (uma postura lógica e a ser respeitada, como qualquer outra) E ela parecia lutar muito por esse direito de ser respeitada nesse seu estilo, não litúrgico, até talvez anti-liturgico, de ser.
Quem não é do meio, e a vê, tão empenhada em seu ideal, poderia a imaginá-la como uma grande revolucionária, encabeçando um movimento novo e desconhecido aos tão retrógrados e puristas praticantes do BDSM, esses litúrgicos incorrigíveis que não permitem que no vasto leque do SM se abrigue qualquer um que não se ajoelhe imediatamente perante um TOP, no exato minuto em que notam sua presença.

E eu me perguntei: Será que eu e ela freqüentamos os mesmos clubes BDSM? Será que lemos os mesmos textos em comunidades, que conhecemos as mesmas pessoas? Será que vivemos o BDSM no mesmo mundo? Porque eu não vejo onde é que estão esses litúrgicos cruéis e intolerantes dos quais ela parece falar.
Como sempre posso estar errada em minhas analises, parei por um momento, tentando trazer á lembrança as ultimas 10 ou 15 cenas publicas que eu havia tido a oportunidade de presenciar. De fato, naquele dia, nenhuma delas havia sido algo que pudesse se classificar como litúrgico ou mesmo formal. Todas haviam sido cenas curtas, sem qualquer traço de reverencia ou tensão. Todas haviam sido cenas leves, nascidas como que de uma brincadeira. Em algumas, enquanto alguém apanhava no X em meio a risadas e comentários irreverentes, outros presentes nem observavam a cena, mas sim conversavam livremente, uns com copos de cerveja nas mãos, espontâneamente.
Tentei então relembrar, das pessoas com quem tenho algum contato, quais eu poderia chamar de litúrgicas, ao menos no que diz respeito a cenas e sessões SM. Achei uns 5 ou 6. Seguindo no exercício mental, consegui levantar entre meus conhecidos, em menos de 5 minutos, mais de 30 nomes de pessoas que realizam cenas na mais completa informalidade.

Cheguei a uma conclusão: Hoje em dia, Liturgia é que é contravenção!
Os litúrgicos, alem de serem minoria, por algum motivo, ainda recebem a fama de realizarem uma repressão que, no meu ponto de vista, não se verifica.

Não se verifica porque, os únicos litúrgicos de que consegui me lembrar, assistem as cenas dos não litúrgicos e as respeitam. Muitas vezes até fazem comentários que as exaltam em algum aspecto.

Nesse contexto, me pergunto, o que é igualdade?
Entendo que igualdade seria que não se apontasse como erro, nem a liturgia, e nem a falta dela. Que litúrgicos e não litúrgicos convivessem bem, sem que se pusesse a culpa pelos erros do SM, nem em quem se recusa a ajoelhar-se perante um TOP, e nem em quem se ajoelha prontamente, considerando esse ato uma demonstração de respeito.

Eu, que amo liturgia, me sinto a ovelha negra do SM quando leio posts que insinuem que liturgia é babaquice. Quem decidiu que se eu me ajoelho para meu Dono, estou desrespeitando aquela que cumprimenta o Dono dela com um tapinha jocoso nas costas?
Eu não me sinto ofendida quando presencio a irreverência. Eu sorrio para ela. Acho que é algo que demonstra intimidade. Acho que as cenas espontâneas podem ser lindas, também, dentro de um estilo que eu em geral não sigo, mas respeito.

Mas a mim, no que diz respeito ao tema, o que realmente encanta, arrebata, faz sonhar, é entrar em um Dungeon bem decorado, iluminado por velas, ambientado com musicas apropriadas e em que impera o silencio e a atenção do publico para com as cenas que se apresentam a seus olhos.
Gosto que existam sim, regras de conduta. Me agrada. Me envolve.
Gosto de simbologia. Gosto dos pequenos rituais. Gosto da organização.
Não imponho, nem tento impor a ninguém a liturgia que sigo. Até porque, ela exige um certo perfil. Não é todo mundo que se interessa. Esse é um ponto. Mas também não é todo mundo que é capaz compreende-la. E em geral, as pessoas que mais tiram sarro, que mais criticam, dizendo que se negariam veementemente a seguir essa liturgia, são exatamente pessoas que eu creio não terem nem mesmo condição de segui-la. Eu jamais as aconselharia a fazer as coisas que eu faço. Elas não querem. E eu não julgo que seria apropriado aos sagazes tiradores de sarro, o uso de rituais que são expressões de sentimentos intensos.

Digam o que disserem, eu que já freqüentei muitas plays litúrgicas afirmo que, o fato de haver toda uma ambientação e preocupação com a liturgia, não tira, de forma nenhuma, a força da entrega. Quem quer ser falso, é falso com ou sem liturgia. Quem quer simular, simula no silencio de um Dungeon a luz de velas, ou no barulho de um Dungeon informal. Liturgia não é falta de conteúdo. É exigência de conteúdo e expressão dele, de formas belas e cheias de símbolos.

Tenho amigos de todas as tribos e de todos os estilos no BDSM. Nunca deixei de cumprimentar ninguém ou de sentar a mesa com alguém apenas por ter um estilo diferente do meu. Mas o que vejo hoje, e me perdoem a honestidade, é uma divisão infantil. É quase como se houvesse uma mesa reservada para a massa critica, que está sempre pronta a ridicularizar toda e qualquer manifestação litúrgica. Que seria isso? Medo? Mas medo de que? Do diferente? Medo de que quem chega vá ser raptado pelos formais caso alguém não os oriente sobre os perigos da liturgia?

Que bobagem!

Seja Liturgico! Ou seja informal! Mas deixe de ser ANTI-LITURGICO. Isso sim é que é tirania!



=)

4 comentários:

₤α fєммє disse...

Querida Tavi,
não vim postar aqui minha opinião sobre o assunto.(Estou quieta , mas não o suficiente para me calar diante de um excelente post como este)
Mas quero sim PARABENIZÁ-LA, pelo texto.
Claro , coerente, necessário.Espero que muitos passem aqui e o leiam atentamente.
Meus Parabéns novamente.De uma inteligência e coerência ímpar.
Um beijo a você e Sds ao Sr Asgard.

Master Christian Sword of GOR disse...

tavi

Como adepto da liturgia quero aplaudir de pé o seu texto.

Tem de haver espaço para todos os modos de BDSM dentro do nosso meio. Basta o preconceito que sofremos do mundo baunilha que não sejamos nós a crimarmos mais preconceito.

Pela tolerancia a diferença no meio!

Parabens
CSoG

MFD_[margoth] disse...

Bom, o texto esta ótimo como sempre
Acho o que essa pessoa quis expressar, foi que muito dos que se dizem liturgicos, são os que mais querem ditar e ler a "biblia BDSM"
Não há regras para o nosso próprio prazer, eu acho lindíssimas as cenas liturgicas e entendo que cada dia mais as pessoas não respespeitam, mesmo, rindo, conversando, falando alto, em momentos que apenas o olhar e curtir a beleza que um momento de entrega e cena com rituais pode oferecer.A escrava nua,já não é mais vista como a beleza de estar despido (simbolicamente de tudo), e sim como "nossa que gostosa",a forma de falar e se referir, é levada como passividade.Eu gosto sim da liturgia, se me trouxer prazer, acho lindo, mais não sou dependente dela.E acho uma pena essa divisão, de liturgicos e não liturgicos, com os meio termos ditando o que é ou não correto.
Devemos nos unir, seja a forma de pensar que cada um tenha.
O importante é o respeito, sempre, o que a liturgia ensina muito, o respeito..........
E com certeza, em dose certa, liturgia nunca será babaquice...isso pode ter certeza
Frisando novamente,que para muitas pessoas liturgia é essa onda de "biblia BDSM",como se houvesse regras dentro da relação BDSM de cada um
Um bjo, Parabéns novamente

SENHOR disse...

Quando as idéias são claras, as palavras fluem. Quando os sentimentos afloram, se articulam num discurso coerente e encontramos uma autenticidade apropriada ao desabafo, cumprimos uma forma litúrgica de confissão. O que achei de fascinante no seu texto? A ausência de esclarecimentos sobre o valor do rito no trato da essência...você afirma sua posição de forma hermética... sem explicar que a receita utilizada pode influir no sabor do prato... que o conjunto dos ingredientes, do processo e da mão que mexe o caldeirão têm que ser precisos e apropriados... rsrsrs... pode-se dar gargalhadas em enterros e chorar das piadas, e do mesmo modo ignorar a nudez como um estímulo, a entrega como um presente e a dominação como um desdobramento da autoridade... mas a verdadeira Arte não encontra abrigo no que é medíocre, nem permite banalizar o que é sublime, manisfesta de forma sofisticada o que aparentemente é simples... mas só acontece quando revela coerência entre idéia, sentimento e gesto. Seu diagnóstico foi diplomático quase um pedido de desculpas, mas para os olhos mais atentos, você jogou uma pá de merda naqueles que revelam uma ausência de conteúdo e fazem do bdsm mais uma tribo, uma moda, uma embalagem para o vazio interior que ostentam... meus cumprimentos e da minha sub Lady Masoch que chamou minha atenção sobre o teu texto.

tavi