segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

SETE - Parte 6 - Armand

- Scarlet, você está bem?
Abri os olhos.
- Armand?
- Não, scarlet. Sou eu. A naya. Você está bem?
- Que horas são?
- Quatro da tarde.
A luz machucava meus olhos. Eles pesavam. Era difícil permanecer acordada.
- Eu preciso voltar pra o JOSHUA.
- JOSHUA não está mais aqui. Mas logo deve retornar. Ele mandou que eu viesse te dar um banho. Miss Catsy me deixou sob os cuidados dele.
- Me dar um banho? Naya, onde a gente está?
Percebi que eu estava deitada em uma cama com um revestimento impermeável. Então compreendi
- Estamos na casa 6 – ela confirmou – Está é a casa do Monsieur Armand.
Levantei com dificuldade. Dois grandes espelhos cobriam totalmente duas das paredes do quarto de Armand. O lençol deslizou pelo meu corpo. Naya olhou-me, totalmente perplexa. Andei até o espelho mais próximo. Não havia uma parte de mim que não tivesse sido marcada pelo punhal de Armand. Estendi meus braços. Toquei minha pele. Algumas marcas eram de cortes que ele havia aberto em mim. Outras eram apenas de arranhões, ainda bem visíveis.
-Scarlet. Fica calma. São cortes superficiais. As marcas vão sair em duas ou três semanas.
- Que pena! – respondi, ainda me olhando no espelho – são lindas.
- Você é realmente estranha, scarlet – ela sorriu – Vem, hoje eu que vou cuidar de você.
Naya encheu a banheira e entrou nela comigo.
- Noite longa – ela comentou. Rimos juntas.
- Como foi? – perguntei.
- Você quer mesmo saber?
- Quero, eu acho...
- Ah... Horrível!
- Horrível?
- Eu não estou falando mal do seu Senhor, scarlet. É que eu não sinto prazer algum em estar com um homem. Eu não sou como você. E nada vai me mudar. Está aliviada em saber disso? – ela provocou.
- Não sei. Acho que não. O que é estranho. Eu deveria ter ficado. Não acha?
- Talvez. Cada uma de nós sente essas coisas de forma diferente. Submeter-se nem sempre é o mesmo que amar.
Eu nunca havia achado que amor e ciúmes precisavam estar conectados. Mas era estranho eu não ter sentido nada. É verdade que fiquei humilhada, ferida em meu orgulho, por não ter conseguido o maior preço no leilão. Mas tê-lo visto ali, em cena, expondo todo o prazer que sentia ao toca-la e usa-la da forma que ele desejou, não me fez sentir mal como eu imaginei que me sentiria. E isso me confundiu.
Amor e submissão são dois sentimentos muito fortes. Mas eu não sabia dizer qual dos dois era maior ou mais nobre. E nem sabia quanto de cada um deles havia no outro. Pode-se submeter-se a quem não se ama de nenhuma maneira? Pode-se amar uma pessoa completamente sem desenvolver nenhum tipo de submissão por ela, ainda que inconscientemente? E o que eu sentia pelo JOSHUA afinal? O que era aquele sentimento que me permitia impunemente vê-lo com outra pessoa, mas que me enlouquecia se eu sequer imaginasse a possibilidade de tê-lo desagradado?
Naya tocava um de meus cortes.
- Gosto da sua pele...
Eu não consegui sorrir.
- No que você está pensando, scarlet. Onde você está?
- Aqui... Como eu vim parar aqui, naya? Eu não me lembro de ter subido. Foi o Armand que...
- Ele te trouxe pra cá ainda em subspace. Você apagou completamente.
- Naya, eu não consigo lembrar...
- Eu não sei o que ele fez com você. Eu não estava aqui. Mas se você não se lembra, não deve ter sido nada memorável – naya sorriu maliciosamente, e piscou pra mim.
- Não. Nós não... Ele não fez isso, naya. Eu sei.
-Como você pode ter tanta certeza, se estava apagada? – ela perguntou.
- Se ele tivesse feito, eu saberia.
- Mas como você...
- Eu simplesmente sei – interrompi.
Naya secou meu corpo e voltamos para o quarto. Enquanto eu secava meus cabelos, ela me contou o que havia se passado, enquanto eu dormia.
- Armand não te devolveu no horário combinado. É bom você saber que o JOSHUA não está contente com isso.
- Mas eu não tive culpa.
- Não. Não teve. Não se preocupe demais com isso. Agora vá. Logo o JOSHUA estará de volta. Vou arrumar as coisas aqui na casa seis.
Eu fui em direção à escada.
- Não – disse naya – Não vá para a masmorra. Você deve espera-lo na casa um.
Sorri. Eu conhecia o JOSHUA o suficiente pra saber que se ele queria me ver em sua casa, ele provavelmente tinha algo importante a me dizer. Até então, eu havia feito tudo certo. Eu fui uma escrava capaz de ir muito longe por ele. Mesmo sem o conforto de um nome no meu pescoço. Mesmo sem qualquer evidencia direta de sua apreciação por mim, eu o segui. Tudo que eu fazia havia sido por ele. E os meus pensamentos, todos, se voltavam ao meu objetivo de provar-me sua. Meus momentos haviam sido todos dele. Desde o tormento de ser sido rejeitada e entregue ao Sadismo emocional do Senhor Ventríloquo, de passar meus dias em uma cela fria, de ter minha imagem exposta a pessoas desconhecidas, de trabalhar, servir, ser torturada até mesmo pelo meu próprio desejo, que ele se negava a satisfazer, até ser vendida ao Monsieur Armand e marcada por ele, tudo eu havia suportado, prontamente, como um ser que não mais se pertence. Era possível que houvesse chegado a hora de eu receber a minha recompensa.
Caminhei pelo terreno e entrei na casa um, nua e descalça.
Ele bebia um suco, sentado em sua poltrona.
Ajoelhei-me a seus pés.
- Sente-se – ele disse, apontando para o sofá.
Obedeci.
JOSHUA me entregou algumas caixas. Em uma delas havia um belíssimo corset, todo bordado em preto e vermelho. Na outra, um vestido curto, mas de muito bom gosto e incriticável qualidade. Também havia uma caixa com o salto mais alto que eu já havia tocado. E meias 7/8. E um sobretudo que devia sozinho custar mais do que todas as peças de roupa que eu tinha.
- Vista-se – ele ordenou – as roupas são suas.
Novamente obedeci. O glamour daquelas vestimentas e a forma como elas exaltavam tudo em mim, me fez saber que ele as havia escolhido, peça a peça, especificamente para mim. Olhei-me no espelho. Ele sorria para o meu encantamento com tudo aquilo, para a minha inocência, tão feminina, que examinava a maciez do toque de cada tecido. Ajeitei meus cabelos. E ao terminar, sentei-me novamente no sofá.
- Vamos sair essa noite, Senhor?
- Não – ele respondeu – Você vai. Tem algo que eu preciso que você faça pra mim. Essa noite haverá uma festa fetichista. Eu preciso de uma presença feminina. Alguém que nunca tenha sido vista antes.
Meu sorriso sumiu de meu rosto.
- Quer que eu vá espionar a festa para o Senhor?
- Não.
JOSHUA levantou-se de sua poltrona e sentou-se ao meu lado. Então pegou uma fotografia em seu bolso e me mostrou.
- Este é um amigo meu. Ele será apresentado a ti como Black Eagle. Por anos eu tenho acompanhado seu discurso, suas cenas públicas e sua conduta que tem me parecido impecável.
- Mas... – completei, prevendo algum porém.
JOSHUA sorriu
- Sim, scarlet. Tem um “mas”. Existem rumores de que ele comete alguns abusos com algumas submissas. Obviamente ele não o faria com as que tem muitos contatos, ou que são bem articuladas e detém conhecimento sobre as práticas. As pessoas que o acusaram de quebra de consensualidade foram duas submissas iniciantes. E depois de passarem pela experiência que alegaram ter sido abusiva, retiraram-se do meio. Ele alega que foi difamado por ter rejeitado aquelas mulheres. Eu não tenho como verificar a veracidade das informações com elas.
Eu não conseguia olhar para ele.
- O Senhor quer que eu corra riscos pra te provar que um Dominador serve para o seu grupo?
- Scarlet, não vai acontecer nenhum mal a você. Pode confiar em mim.
Pensei por alguns segundos. Era difícil confiar.
- Mesmo que eu não considerasse esse seu pedido uma falta de preocupação imensa com a minha integridade física, eu não poderia garantir que eu conseguiria seduzi-lo. E se conseguisse, ele poderia achar que eu não sou a pessoa certa pra ele tratar sem preocupação.
JOSHUA riu. Levantou-se e me levou até o espelho. Arrancou meu sobretudo com um movimento brusco.
- Olha pra você, criança. Veja essas marcas em seus braços, em suas costas, em suas coxas... Me diga se você parece alguém que tem muito cuidado com sua integridade física... Black Eagle, assim que avistar esses cortes, vai te rotular como exatamente o tipo de garota com quem ele pode fazer o que quiser, impunemente. Isso, lógico, caso ele seja exatamente como foi pintado por aquelas garotas.
Eu chorei de raiva e de decepção. Mas eu também chorei por me sentir culpada, mesmo sabendo que na verdade eu não tinha culpa de nada.
- Foi por isso, não foi? Foi por isso que me entregou para o Armand... Pelas marcas... Elas são bem oportunas agora.
- O Armand te comprou. Eu não te entreguei pra ninguém em especifico. Te entreguei pra quem pagasse mais por uma noite com você.
- Mas o Senhor sabia. Sabia que seria ele. Sabia o que ele iria fazer. Tudo que o Senhor faz é manipular as pessoas a sua volta. Tudo é calculado por aqui. Vocês não são sete. São um só. E eu não sei mais se eu gosto de quem vocês são.
- É seu direito, scarlet. Você pode optar por pensar assim. Tudo que você fez até agora foi pelo teu sonho. Entenda, tudo que eu faço é pelo meu sonho. E ele é nobre, você acredite nele ou não. Você pode ir embora se quiser. Seu carro continua estacionado no mesmo lugar. As portas estão abertas pra você. Eu não prendo ninguém que não queira ser presa. Eu não firo ninguém que não precise ser ferida. E é por isso que eu não deixaria entrar aqui alguém que já foi acusado de agir contra a consensualidade e a segurança de mulheres que eu nem mesmo conheço. Não sem antes testar sua forma de agir. Você pode me ajudar nisso, ou não. Eu o farei do mesmo jeito. Nem que eu seja julgado por você. Eu não perverto meus valores. E agora, o que me importa é garantir a segurança de qualquer mulher que sirva a um dos Sete. Se você se for, eu entenderei. Mas seria uma pena. Você chegou tão perto...
- Tão perto de que?
- Tão perto de ser minha!
Sequei minhas lágrimas.
- Entendo... E depois, se eu fizer isso...
- Se você se sair bem nessa tarefa, você terá me provado seu valor como submissa. E eu não deixo nada de valor escapar pelas minhas mãos.
- Está me dizendo que...
- Se tudo sair de acordo, você será minha.
Se por um lado eu via nobreza em seus propósitos, por outro eu via apenas o descaso com a minha segurança. A rejeição que eu havia sofrido até então me cegava e eu era capaz de odia-lo por alguns instantes.
- Sim, Senhor. Eu irei.
Ele sorriu e completou
- Mas... Ainda tem algo que você quer me dizer...
Eu o olhei nos olhos. E me surpreendi por não ter sido nem um pouco tentada a baixar o olhar. E foi o turbilhão de sentimentos confusos que passavam por mim que me deu forças pra dizer:
- Eu não te amo, JOSHUA.
Ele passou as mãos, gentilmente, pelos meus cabelos.
- Eu sei, scarlet. E estou contente que agora você também saiba. Agora, me obedeça!
****
Tony me aguardava no carro, já do lado de fora do portão, quando eu saí. Sentei-me ao seu lado.
- Hey, princesinha. Pronta pra missão?
- Desde que você não me faça ir até lá ouvindo seus terríveis CDs de rock experimental, estou pronta.
Ele riu. E ligou o rádio.
Olhei para trás. Naya e becky estavam indo também.
- A nina não vem? – perguntei.
Becky riu:
- E o que a nina iria fazer lá? Chorar se algo desse errado?
Naya estava visivelmente desconfortável. Perguntei se ela estava bem.
- Tony – disse naya – isso não está fazendo sentido. Essa tarefa não é o que parece. Se fosse, não precisariam de mim pra nada.
- Naya, não pense. Hoje você não está aqui para pensar.
Naya tentou retrucar, mas Tony aumentou o som. E foi o caminho todo comentando sobre as músicas comigo. Tony sempre conseguia me acalmar. Ele sabia que era preciso. Eu não sou exatamente a pessoa mais eloquente desse mundo. Eu não estava acostumada a seduzir. Já era bastante difícil pra mim manter uma conversa fluindo em qualquer ocasião social. Eu teria que entrar em um ambiente hostil, ganhar a atenção e o interesse de Black Eagle, e conseguir que ele quisesse fazer uma sessão comigo. Era pedir demais para alguém como eu.
O evento era em uma casa noturna, no centro da cidade. Logo na entrada, eu já via todo o tipo de gente. Drag Queens dividiam o espaço com casais bem vestidos e de porte elegante. Meninas de coleira diziam não para garotos de camiseta preta e jeans, que pediam para beijar seus pés. Um moço loiro, simpático, que segurava uma garota bem jovem pela guia, sorriu para a becky. Sua escrava fechou o rosto e o puxou para conversar. Os dois brigavam na porta quando eu entrei.
O ambiente era escuro, mas mesmo assim, alguns exibicionistas perfuravam seus subs com agulhas. Em alguns cantos, casais ensaiavam pequenas cenas, simultaneamente. As pessoas na pista de dança moviam-se ao som de música eletrônica enquanto um garoto de uns vinte e poucos anos era tatuado. Os convidados exibiam muito couro, vinil e látex. Era comum ver pessoas mascaradas ou até mesmo nuas.
Localizei Black Eagle em poucos minutos. Ele estava no bar, conversando com um casal, aparentemente iniciante. Tony fez sinal para que eu aguardasse com as meninas. Ele iria se aproximar primeiro, pois Tony e Eagle já se conheciam. Vi quando os dois se cumprimentaram. Becky me puxou pra dançar. Achei que seria melhor do que ficar parada, no meio daquela festa inusitada. Enquanto becky parecia honestamente se divertir, eu me movia apenas o necessário. Meu coração acelerava. Eu estava tensa demais.
Então naya apareceu na pista e me puxou pra perto dela. Pos suas coxas entre as minhas, segurando-me pela cintura, como se ela quisesse apenas dançar de forma sensual. Na verdade ela só precisava me afastar da becky. Tinha algo que ela queria me dizer:
- Scarlet, me escuta. O Armand está aqui. Isso não faz sentido. No dia da festa, eu ouvi quando ele disse para o JOSHUA que hoje estaria fora da cidade. Eu estava servindo bebidas para os dois. Tem alguma coisa muito errada acontecendo. Eu ainda não sei o que é. Mas eu vou descobrir. Toma cuidado. Não faz nenhuma besteira.
- Onde está o Armand? Onde você o viu?
- Olha à sua esquerda – ela disse.
Virei-me discretamente. Armand estava encostado na parede, olhando diretamente pra mim. E tinha algo no seu olhar que me chamava. Eu não sabia o que fazer.
Armand se aproximou e me tomou de naya, sem hesitação. Eu senti suas mãos nas minhas costas, me puxando pra perto. Eu ouvi sua voz no meu ouvido, quase sussurrando:
- Você gostou das marcas que eu deixei em você?
- Sim, Senhor. São lindas. Obrigada.
Naya me olhava com reprovação.
- Scarlet, quando estávamos juntos, eu senti algo. Eu preciso saber se você sentiu também.
Eu sabia do que ele estava falando, mas achei melhor fingir que não.
- O que o Senhor sentiu? – perguntei
- Eu senti... Eu senti que você é perfeita pra mim.
- Senhor, eu não sei. Eu também senti alguma coisa. Mas eu estou confusa...
- Scarlet, eu sei o que ele quer que você faça. Mas o Eagle é um cara perigoso. Mais do que você pode imaginar. Eu não quero você com ele em um quarto. Isso é loucura.
- Mas o JOSHUA falou que eu estaria segura. Eu preciso confiar.
- o JOSHUA... Já pensou que talvez o JOSHUA não seja o que parece ser? Você vai realmente confiar nele?
- Sim, Senhor... Eu acho... Eu não sei... Tudo isso é tão estranho...
- Não vá. Não faça isso – ele disse.
- Senhor, eu preciso – eu respondi.
- Scarlet, Eu acabei de jogar um celular no seu bolso. Se alguma coisa sair do seu controle, tente discar para o ultimo número da lista. Você sabe fazer isso?
- Sim, Senhor.
- ótimo. Eu receberei a ligação imediatamente.
Armand se afastou de mim, me deixando sozinha na pista de dança. As meninas já estavam ao lado do Tony, e acenavam para mim.
Cada passo que dei foi contra os meus desejos. Cada frase que disse, tentando conseguir a atenção de Black Eagle, me feria. O meu sorriso era vazio. E enquanto minhas mãos tocavam o braço daquele Senhor desconhecido, meus olhos rodeavam o lugar à procura dos olhos de Armand.
Black Eagle não me deu muito trabalho. Foi fácil introduzir um assunto qualquer e deixar que ele falasse, sozinho, contando suas histórias fantasiosas sobre tudo o que supostamente ele já havia feito com uma mulher. Quando Tony percebeu que a conversa fluía, afastou-se com as meninas. Logo erámos apenas nós dois. E não demorou até que ele me convidasse para conhecer sua masmorra, que, segundo ele, ficava há apenas alguns quarteirões dali.
No carro, Black Eagle parecia um pouco menos gentil e menos paciente. Mais de uma vez ele tocou minha coxa. Uma das vezes, retirou com a unha a casquinha de cicatrização de um dos cortes e disse:
- Você realmente deixou esse cara acabar com você, não foi?
Eu tive medo. Ele tornava-se cada vez mais desagradável. E parecia gostar da ideia de estar genuinamente me repelindo.
Eu demorei para perceber que estávamos sendo seguidos. Uma moto se aproximava, depois dava espaço, sumia pra voltar um pouco depois. Era Armand. Eu podia senti-lo perto.
Black Eagle continuava dirigindo para locais estranhos e afastados.
- Estamos muito longe?
- Longe de onde?
- Da sua masmorra, Senhor.
Black Eagle riu nervosamente.
- E pra que uma masmorra? O que eu quero fazer com você eu posso fazer em qualquer lugar.
- Encantador... Mas não foi o que combinamos, Senhor. Por favor, pare o carro – enquanto falava, pus minha mão no bolso e tocando o celular com discrição, fiz como Armand tinha me instruído.
Black Eagle continuou dirigindo. E deslizava uma das mãos nas minhas pernas. Me esquivei.
- Eu não quero – disse. Eu não quero e eu não estou brincando. Você mentiu sobre a masmorra e sobre quem você é. Eu reconheço uma farsa quando eu vejo uma, e você não passa de uma farsa. Não me toca!
Ele então me deu um tapa com as costas da mão, quase perdendo o controle do carro. Eu senti gosto de sangue em minha boca.
A moto novamente se aproximava, e nos ultrapassou e foi diminuindo a velocidade, fechando o carro, e obrigando Black Eagle a fugir para o acostamento e frear bruscamente.
Assim que paramos, abri a porta. Black Eagle ainda tentou me impedir de sair, mas viu que Armand descera da moto e caminhava em nossa direção.
Armand o tirou do carro, puxando-o pela camisa. E o que ele fez com Black Eagle, eu prometi que jamais contaria. Mas eu garanto que as marcas que Armand deixou nele, levaram bem mais tempo pra sair do que as marcas que ele havia deixado em mim. Armand tomado pela raiva, era invencível. Ele ganhava uma força pouco comum. Eu tive que fechar os olhos.
Depois disso, Armand me abraçou.
- Tá tudo bem agora, ok? Você vai ficar bem.
Eu tremia muito. Ele pôs seu casaco em minhas costas. Depois levantou meu queixo e me puxou novamente pra perto. Eu não pensei. Eu apenas o beijei com uma intensidade única. E o puxei pra mim sem nenhum pudor ou controle. Por alguns segundos eu me sentia livre. E eu seguia os meus próprios desejos. Eu não era escrava de nada. Quem o beijava nem mesmo se chamava scarlet. Quem o beijava ainda não tinha nome. Era essa parte de mim, que eu nunca havia conhecido. Essa nova pessoa que tomava seus desejos nas mãos e os transformava em ações, sem pedir permissão. E nesse momento, tudo o que ela queria era beijá-lo longamente, exatamente como fez.
Outro carro se aproximou. Os faróis incomodaram meus olhos. Demorei a reconhecer Tony e as meninas. Naya desceu do carro e correu a meu encontro.
- Scarlet! Scarlet, você não beijou o Armand, beijou? Me diz que você não o beijou!
Olhei pra ela. Os braços de Armand ainda envolviam meu corpo. Meus lábios ainda estavam marcados pela pressão dos lábios dele. Ela entendeu que eu o havia beijado.
Ela virou-se pra ele, em fúria:
- Vocês encenaram aquela conversa sobre o Senhor estar viajando, não foi?
- Sim, naya. JOSHUA sabia que eu estaria aqui. Na verdade, foi ele quem me pediu para estar aqui.
- Vocês me usaram, não foi? Queriam que eu dissesse pra scarlet que o JOSHUA não sabia de sua presença na festa...
- Sim. Era preciso que ela pensasse que tudo ocorria sem o conhecimento dele.
- Por que? – perguntei – Do que vocês dois estão falando?
Armand explicou:
- Queríamos saber até que ponto iria sua submissão ao JOSHUA. Como eu disse, ele pediu para que eu estivesse aqui. Houve dois motivos para a minha presença nesta festa.
- Que motivos? – perguntei.
- Primeiro, pra te proteger.
Naya derramou uma lágrima. Armand continuou:
- E em segundo lugar, pra te testar. Duas pessoas foram testadas hoje, scarlet. Black Eagle e você. Eu sinto muito. Você não deveria ter me beijado.
(continua...)

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

SETE- Parte 5 - Subspace


Eles chegaram, juntos, por volta das oito horas. Desceram pelo corredor da casa de número quatro. JOSHUA, Tony e o Senhor Ventríloquo estavam na masmorra. Nina e Becky estavam também no hall, dançando para eles. Com uma ordem dada por um mero aceno, elas interromperam a dança e retornaram aos pés do Senhor Ventríloquo.
Tinha algo na figura daquela mulher que me deixava tensa. Eu observava seu vestido delicado, suas luvas negras, cobrindo a maior parte da extensão dos braços, e os sapatos finos e brilhantes. Ela andava com notável arrogância, como se todo o ambiente a pertencesse. Ao seu lado, conduzindo-a pelo braço, um rapaz, tão bem vestido quanto ela. Ela devia ter uns trinta e poucos anos. A qualquer um que a observasse, sua beleza era inegável, porem seus traços denotavam crueldade. Mas no momento em que avistou JOSHUA, ela abriu um sorriso largo e inocente, desprendendo-se das mãos do rapaz que a acompanhava.
Ela correu até o JOSHUA e o abraçou demoradamente.
- Feliz Aniversário, minha querida.
Dava pra ver que toda a sua frieza se derretia, e sua face até mesmo tornou-se rosada.
- JOSHUA! Como senti sua falta! Que gostoso estar aqui com vocês novamente.
- Parabéns, Catsy – disse Tony, abraçando-a, em seguida.
O Senhor Ventríloquo, mais discretamente, também a cumprimentou. E depois mandou que suas meninas se pusessem aos pés de Miss Catsy, desejando a ela os parabéns.
- Lindas! Adoro suas meninas, Ventriloquo! Naya. Venha cá. Tire minhas luvas.
A menina naya então pos-se aos pés da Dona, e os beijou com devoção. Depois delicadamente retirou as luvas negras de sua Senhora, e encostou os lábios em seu belo e imponente anel.
- Feliz Aniversário, Senhora. – disse, com voz de veludo.
Miss Catsy sorriu. E olhou para o rapaz que a acompanhava.
JOSHUA o recebeu:
- Olá Armand! Como vai?
- Muito bem. Melhor agora, em boa companhia.
Notei imediatamente certa tensão no ar. Parecia que a presença de Armand tinha criado alguma tensão. Eu estava ajoelhada, perto de nina e becky, e perguntei, o mais baixo que consegui:
- Quem é ele?
Becky respondeu:
- Monsieur Armand. Ele faz parte dos Sete. Trate-o com muito cuidado, scarlet. Se possível, nem olhe pra ele.
Eu tentava não olhar, mas ele tinha um jeito enigmático. Era quieto, muito mais que os outros. Movia-se menos. Mas olhava a sua volta, muito mais. Os TOPs sentaram-se à mesa que havíamos montado no centro da masmorra. As escravas permaneciam ajoelhadas aos pés de seus Donos. Eu permanecia no chão, também, encostada na cadeira de JOSHUA. Do outro lado, estava angel, que abraçava um de seus tornozelos.
- Cinco de Sete presentes! – Disse JOSHUA. Isso muito me alegra.
Miss Catsy fez uma expressão quase infantil, de tristeza.
- Sim, sim... Uma pena o Druída não poder estar conosco.
Tony concordou:
- Que falta sinto desse cara! O mais divertido de todos vocês!
JOSHUA riu. Ventríloquo discordou.
- O mais divertido sou eu!
- Nos seus sonhos! – disse Miss Catsy.
Depois de alguns minutos de conversa, nos quais as meninas se moviam do hall para a cozinha, oferecendo bebidas e salgados para os TOPs, o semblante leve de JOSHUA se fez sério:
- Catsy e Armand... Tenho um anuncio um tanto triste pra vocês.
Tony e Ventriloquo, que já sabiam do que se tratava, entreolharam-se.
- O que foi, JOSHUA? Fala logo. Estou ficando tensa com esse mistério.
JOSHUA continuou.
- Perderemos um dos nossos. Infelizmente um de nós não vai poder continuar.
- Mas qual dos dois? A Mistress? Mistress Vera vai sair?
JOSHUA balançou a cabeça, negativamente.
- o Druída? – perguntou Armand – não faz sentido. Por que ele sairia?
- Bem, ele não teve muita escolha. E eu não vou dividir os detalhes de sua vida pessoal perante escravos. Mas vocês sabem que ele tem estado ausente. De qualquer forma, pra mim importa que encontremos alguém para ocupar seu lugar. É nisso que conto com todos vocês. Vocês conhecem as regras. E eu confio no julgamento de cada um. Eu quero que tragam a mim suas indicações. Eu já tenho alguns nomes, mas não há nada definido. Cabe agora testa-los, um a um. E depois fazer o convite.
- Pode contar comigo, JOSHUA – disse Armand, já se recolhendo em reflexão.
- Mas essa noite – disse JOSHUA – é nossa. E queria propor uma play aos que estiverem interessados.
Ví que nina imediatamente se encolheu, como se tentasse se esconder.
- Perfeito! – disse Miss Catsy – buscando o olhar de naya, que sorriu.
- Não é uma boa ideia pra mim – Disse Armand. Eu não trouxe ninguém. E não vou querer ficar apenas apreciando a diversão.
- Eu achei que nunca fosse dizer isso, mas eu concordo com o Armand. Nem todos estão preparados – disse Tony.
JOSHUA sorriu como quem obtém exatamente a reação que desejava.
- Claro... Claro. É verdade. Também é verdade que eu e o Ventríloquo temos mais do que precisamos à mão. Ninguém reparou nessa garota perdida aqui, a meus pés?
- Quem é ela? – perguntou Armand.
- Alguém que faria tudo por mim – JOSHUA sorriu – não é mesmo, scarlet?
- Sim, Senhor – respondi. Minha voz quase não saía.
- É uma joia rara. Uma garota orgulhosa, tentando provar sua submissão.
Miss Catsy interrompeu:
- Entendo onde quer chegar, JOSHUA, mas eu também teria um ótimo uso para essa joia rara.... Veja, Temos 5 escravas presentes. E 5 TOPs. Acho que seria interessante se as leiloássemos. Assim, cada um teria exatamente a escrava por quem estivesse disposto a investir mais.
Os TOPs pareciam deliciar-se com a ideia.
JOSHUA abriu seu sorriso mais largo. E eu soube que um leilão era exatamente o que ele queria desde o primeiro momento. Era incrível como ele sempre conseguia as coisas de forma natural. Seu domínio sobre todos ali, era digno de aplausos. Eu o odiei por isso, naquele momento. Mas então percebi o brilho de satisfação nos olhos de cada um dos TOPs. Apesar de ter poder, JOSHUA parecia saber usá-lo. Sua manipulação, à medida que levava as pessoas à realização, era incriticável. Ele tornava a vida de seus amigos muito mais interessante. Ele sentia suas necessidades. E criava neles, coragem para transformar suas fantasias em realidade. Nada parecia acontecer por acaso, no galpão.
As regras do leilão foram definidas. Quem arrematasse uma garota, teria sua posse até o dia amanhecer. Não havia limites. Cada TOP faria com a garota comprada, o que bem desejasse. Apesar de o esperado ser que cada TOP fizesse apenas um arremate, eles preferiram não descartar a possibilidade de algum deles vencer a disputa por mais de uma peça do leilão. Neste caso, o que ficasse sem ninguém, havia tido, ao menos a chance, e seria, nesta noite, apenas moderador da play que se seguiria.
Miss Catsy colocou as garotas em fila. Ela mexeu em nossos cabelos como quem ajeita sua coleção de bonecas para exposição. Seriamos realmente compradas. E ficara decidido que o valor arrecadado seria investido em melhorias na masmorra. Naya estava atrás de mim na fila. Ouvi quando Miss Catsy disse a ela:
- Consiga o maior lance, menina! Eu ficarei orgulhosa.
A competitividade realmente é estimulante. O prazer de ser reconhecido pela superioridade em qualquer coisa tem um grande poder sobre uma pessoa. O masoquista, eu aprendi, mais tarde, cobra muito de si mesmo. Ele acredita em seu poder. Não se resiste impunemente a uma quantidade de dor que a maioria das pessoas não aguentaria. Algo muda dentro de você quando você percebe a sua força de uma maneira tão evidente. É muito comum que o perfil de um masoquista inclua um desejo, nem sempre assumido às vezes até inconsciente, por ofuscar o brilho de todo e qualquer igual que cruze seu caminho. Não é maldade. É quase uma necessidade de ir além. E esse aspecto da personalidade masoquista começava a aparecer em minhas atitudes. Eu via nina, com seu olhar baixo. Ela tremia. Era claro que sentia-se totalmente humilhada pela ideia de ser leiloada e usada por aquele que mais oferecesse por ela. Angel parecia sentir o mesmo. E becky estava obviamente enfurecida. Apenas naya, parecia concentrada. Eu levantei meu rosto e decidi que eu seria arrematada pelo maior valor. E era JOSHUA quem se sentiria orgulhoso de sua menina.
Nina foi levada ao X e permaneceu de costas para ele, exibindo seu corpo para os possíveis interessados. JOSHUA deu o primeiro lance. Ele e Armand alternaram algumas ofertas. A garota estava corada. Mesmo assim, ela permanecia em sua pose, endireitando o corpo, empinando os seios, passando a mão pelos belos e longos cabelos. Miss Catsy sentiu um imenso prazer em aumentar os lances dos dois Dominadores. Até que foi mais longe do que deveria. Nina foi vendida à Miss Catsy, para ser seu brinquedo aquela noite.
Becky foi arrematada rapidamente. Houve poucos lances por ela. Era claro que Tony a desejava. E pareceu-me que os membros dos Sete evitaram elevar muito os valores. É lógico que a personalidade de becky não ajudava. Sua rebeldia não era nem um pouco sofisticada. Ela era rude, quase selvagem. Tony saberia muito bem como tratá-la.
O Senhor Ventríloquo foi o primeiro a fazer um lance pela posse temporária de angel. E foi também o que venceu a acirrada disputa. Poucas vezes eu a vi tão desconfortável. Por ela, muitos lances foram feitos. E os mais altos, até então. Seria difícil supera-la. Eu precisava de uma estratégia. Planejei rapidamente minhas ações. Mas eu não sabia se eu teria coragem...
Então fui levada ao X. Miss Catsy deixou-me ali, e distanciou-se. Permaneci. Exposta. Provavelmente tão corada quando a nina estava. Meu coração batia forte também. E minhas mãos também estavam frias. Mas eu não era como a nina. Respirei fundo. E levantei meu olhar. Encontrei os olhos de JOSHUA, atentos. Eu o olhei com reverencia, com todo o orgulho, que eu tinha de poder estar, de uma forma ou de outra, o servindo. Então voltei-me para o Senhor Ventríloquo, e revisitei, mentalmente, toda a minha fragilidade, deixando que um certo tremor percorresse meu corpo. Ele suspirou. Olhei pro Tony, me certificando de que toda a minha libido pudesse transparecer nesse olhar. Era fácil. Ser exposta e leiloada é uma experiência cheia de nuances, pela qual, toda mulher devia passar, ao menos uma vez. Eu estava, sim, humilhada. Ao mesmo tempo este era um dos momentos mais eróticos da minha vida. Olhei para Miss Catsy com expressão infantil. Eu queria que ela me visse como uma criança, mimada e orgulhosa, mas inocente, pronta pra ser guiada e moldada segundo os seus caprichos. Armand ainda me era um mistério. Mas ele era um mistério pra muita gente. Apostei que ele gostasse de se sentir assim. Eu o olhei com curiosidade. Como alguém que queria muito compreender a verdade que ele escondia por trás de seu olhar vago e inquietante...
- O que você está fazendo? – disse JOSHUA, com um sorriso de surpresa nos lábios.
Eu respondi:
- Senhor, eu estou apenas mostrando porque eu devo ser comprada por cada um dos Senhores.
Ele olhava para os lados, quase sem reação:
- Como assim? Por que você deve ser comprada por cada um de nós, scarlet?
Eu sorri, confiante.
- Porque eu posso ser exatamente o que cada um de vocês quer que eu seja. Eu tenho em mim a escrava dos sonhos de cada um de vocês. Sem fingimentos. Eu sou tudo isso. Só depende de que lado meu eu quero incentivar...
Eles permaneceram mudos por algum tempo. Logo depois, veio o primeiro lance. E o segundo. O terceiro e o quarto. Todos eles haviam feito lances por mim, menos um. Armand permanecia mudo, encostado à parede. E em alguns momentos, o leilão parecia tornar-se tenso. Eu sorria, e os olhava nos olhos, dizendo:
- Compre-me, Senhor!
Os valores aumentavam rapidamente. Fui arrematada, depois de muita briga, por Armand. Minha posse pela noite valia 4 mil reais. Esse era o valor mais alto já oferecido em um leilão na masmorra. Esse era o meu preço. O preço pelo meu corpo, pela minha dor, e pela minha arte.
Armand puxou-me pelos cabelos. Obrigou-me a ajoelhar, e conduziu-me, dessa forma para longe do X. Era a vez de naya. JOSHUA perguntou:
- E então, naya? Vai nos surpreender também? Será que você consegue um valor maior do que a pequena scarlet?
Naya deu de ombros. A segurança dela me assutava. É verdade que ela tinha atributos físicos exuberantes. Mas ela nem se preocupava em expor seu corpo. Apenas ficava ali, com sua atitude arrogante. Ela parecia ter certeza de que me venceria.
- E então naya. O que você tem a oferecer? – Perguntou Tony.
- Nada de mais – ela disse - Apenas minha virgindade.
Os TOPs olharam para Miss Catsy, que explicou:
- Bem... A menina naya nunca esteve com um homem antes. Seus namoros sempre foram com mulheres. E agora ela serve a mim, uma mulher.
Eu estava derrotada. Eu simplesmente não podia competir com aquilo. O preco de naya superou o meu. E foi JOSHUA quem fez o último lance por ela.
Todos nós, escravas e Donos, assistimos à inquietante cena em que naya, por submissão, e não por desejo, foi usada sexualmente por um homem, pela primeira vez. JOSHUA fez questão de que a cena fossa filmada. Ela chorava compulsivamente, nua, ajoelhada a seus pés. Ele acariciava seus cabelos até que ela se acalmasse um pouco. Depois, oferecia seu sexo para que ela o chupasse. Ela tentava se esquivar mas ele segurava firme seus cabelos, quase a sufocando. Então, a debruçou em uma mesa e por vários minutos a penetrou com os dedos. Só depois, forçou seu membro contra o corpo da garota, de uma só vez, e todos nós a ouvimos gemendo de dor. Ele levou o tempo que quis... Não teve cuidado ou compaixão. Apenas obteve seu prazer da forma que ele desejou.
Seguiram-se muitas outras cenas. Em cada uma, eu sentia tanto revolta, quanto fascínio. A beleza do BDSM desfilava perante meus olhos, de uma forma que só entende quem já participou de uma play. Os sentimentos são vários, e se alternam. Desejo, medo, ansiedade, dor e prazer. Tudo tinha seu lugar e seu momento. No meu momento, eu pude compreender um pouco mais o Monsieur Armand. Seu fetiche era estranho. Ela gostava de sangue. Do cheiro, da cor, e do fato que era ele quem o tirava de suas escravas. Eu apanhei com objetos inusitados. Deixei que ele corresse esporas e facas pelo meu corpo. Sentí a dor de alguns cortes nos braços e coxas. No começo, foi estranho. Minha pressão deve ter baixado. O Senhor Ventríloquo foi chamado para ver se eu estava bem... Ele disse que eu estava apta a continuar, mas que talvez entrasse em subspace. Meu sangue escorria pelas pernas, conforme Armand me açoitava. E eu era levada a um estado de consciência alterada. A dor e o sangue eram como uma droga. Eu estava em transe. Flutuava. Eu não conseguia mais focar em nada. Eu era apenas um instrumento do prazer que passeava no meu corpo todo. Eu gozava inteira. Corpo e mente, no vermelho cenário impressionante que Armand criou para nós.
(continua...)

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sábado, 24 de dezembro de 2011

SETE - Parte 4 - Naya, Nina e Becky


A semana que se seguiu foi cheia de acontecimentos. Eu tive pouco tempo para digerir tanta novidade. Mas a verdade é que isso, de alguma forma, era exatamente o que eu precisava.
Todos os dias eu acordava na casa três e descia para a masmorra. Tony era uma companhia cada vez mais interessante. Com ele eu treinava meus comentários ácidos e sarcásticos, que ele sabia retribuir como um verdadeiro Mestre. Mas também era verdade que boa parte do tempo eu apenas ouvia suas canções, e conversávamos amigavelmente sobre qualquer assunto que aparecesse. Ele passou a ser uma espécie de confidente. Era sem dúvida, meu maior aliado até então.
Na hora do almoço, recebíamos a visita de uma garota. Por um dos corredores nunca explorados por mim, descia naya, totalmente nua, e se dirigia à cozinha da masmorra. Não muito tempo depois, ela retornava a nossa presença trazendo uma bandeja prateada em mãos. Ela caminhava de maneira sensual. Os longos cabelos negros e brilhantes brincavam de cobrir e revelar os belos e volumosos seios da escrava. Seu andar era hipnotizante. A dedicação com a qual ela parecia realizar cada movimento me encantava.
- Serei assim – eu dizia ao Tony – quando eu pertencer ao JOSHUA.
- Não sonha alto demais... Não se pode ter tudo – ele respondia.
Naya ajoelhava-se aos pés de Tony. E dos seus lábios saia a mais sutil e delicada das vozes.
- Greetings, Master Tony. Naya pode te servir hoje?
Era engraçado ver o olhar satisfeito do homem que dizia abominar a liturgia.
Após Tony ter almoçado, a garota pedia permissão e as chaves para abrir minha cela e me levar algo para comer. Ela me servia de uma forma um pouco mais leve, mas igualmente delicada. E ali, encostada nas barras, ao meu lado, também fazia sua refeição.
Todo final de tarde, eu ouvia os passos de meu Dono chegando na masmorra. Mas de alguma forma, até o Senhor Ventríloquo já não era uma ameaça tão grande assim. Depois de ter provado uma pequena dose do sadismo do Tony, eu me peguei, mais de uma vez, desdenhando a dor. E até pedindo por mais.
Senhor Ventríloquo dizia que era o orgulho masoquista crescendo em mim. Algo que ele, particularmente, detestava. Mas que ele mesmo me confessou, era grande atrativo para muitos Sádicos e Dominadores, o JOSHUA, inclusive. Para o Senhor Ventríloquo, a fragilidade era estimulante. Ele causava a dor, física e emocional porque assim conseguia fácil acesso à essência vulnerável da feminilidade. Ele causava o “perigo”, o desconforto, para enxergar o ser entregue, e dependente de sua proteção. A verdade é que com o mesmo zelo com que ele se dedicava a criar a dor, ele também protegia cada uma de suas meninas. Por isso encomendava os imensos relatórios. Ele é um dos Sádicos mais responsáveis que já conheci. Ele estudava cada submissa em que tocava. Aprendia sobre sua vida e seu histórico médico. Testava a sanidade e a inteligência emocional de cada uma. Além de mim, havia mais duas garotas que portavam coleiras com suas iniciais. Quem as olhava juntas, imaginava que talvez fossem irmãs. As duas eram orientais e tinham corpos parecidos, com a única diferença que enquanto nina usava os cabelos em um corte reto, às vezes até mesmo jogado de lado, cobrindo parte do rosto, rebeca usava uma franja grossa e bem regular.
Conforme eu ia me tornando uma masoquista cada vez mais forte, mais o Senhor Ventríloquo tinha a necessidade de ter mais de uma garota a sua disposição. A verdade é que ele estava perdendo o interesse em mim. E a partir do dia em que eu consegui não derramar nenhuma lágrima durante a sessão, ele não mais me usou sexualmente. nina era sem dúvida a garota de sua preferencia. Uma escrava dócil, submissa ao extremo, mas com pouca resistência para qualquer tipo de sofrimento. Era fácil magoá-la. E ele obtinha muito prazer ao fazê-lo.
Eu estava contente. Tudo estava seguindo de acordo com o meu plano. Nesse ritmo, logo ele me devolveria ao JOSHUA e eu poderia viver tudo aquilo que havia sonhado. É verdade que eu temia o ciúmes da angel. É verdade que eu também temia o tipo de relato que o Senhor Ventríloquo faria ao JOSHUA sobre mim. Mas se eu não fosse ideal pra ele apenas por ter desenvolvido resistência a seu tipo de sadismo, não haveria nada desabonador a ser dito sobre mim. Apesar dos conselhos desanimadores de Tony, eu me sentia a cada dia mais próxima do meu objetivo.
Porém, certa tarde, o Senhor Ventríloquo não desceu à masmorra. Ao invés disso, mandou que eu subisse ao seu quarto à noite.
- Senhor? Estou aqui – disse. E ajoelhei-me a seus pés com as pernas separadas, exatamente como Nina havia me instruído para fazer.
- Ótimo, scalet. Você se lembrou de dar noticias a seus pais?
-Não, Senhor. Serei punida?
- Por mim não. Mas quero que ligue para eles agora mesmo. Pode usar meu telefone.
-Sim, Senhor.
Ele permitiu que eu me sentasse na cama. Tirei o telefone do gancho. Era difícil discar. Eu me sentia já tão mudada... E voltar a entrar em contato com o mundo baunilha não era uma tarefa das mais fáceis. Eu sentia culpa por estar ali. Sentia-me suja por ter que mentir para os meus pais. Se as vezes eu me pegava acreditando que cada um tem o direito de viver sua vida da maneira que escolher, quando eu pensava o quanto minha escolha poderia machucar minha família, minha falsa noção de liberdade caía por terra.
- Alô?
- Pai? Que saudade!
- Filha, você está bem? Sua mãe tentou ligar algumas vezes e...
- Estou, pai. Desculpa. Eu viajei com uns amigos e me esqueci de avisar. Mas eu estou bem. E como estão vocês?
- Tudo seguindo muito bem... Melhor que o esperado. Mas tenho algo pra te contar. Eu recebi uma proposta muito boa por aqui. Estou pensando seriamente em não voltar para o Brasil. Eu sei que você logo termina a faculdade. E andei pensando... Eu quero que você considere a possibilidade de vir morar aqui na Irlanda, conosco.
- Pai, mas, eu não posso voltar tão cedo. Eu tenho planos...
- Eu sei, eu sei que é meio inesperado. Mas você terá tempo pra tomar a decisão correta. Eu enviei um valor a mais pra sua conta, este mês. Já deixe separado para as despesas com a viagem caso você queira vir. Eu entenderei se você não vier. Mas quero que saiba que todos nós sentimos sua falta. E eu me preocupo muito com você. Mas se você tem um bom motivo pra não vir...
- Pai... Eu... Na verdade eu tenho alguns motivos pra não ir agora...
- Sei... Imagino que estejamos falando de um amor.
- Talvez. Mas não é bem isso. É difícil explicar. Mas eu estou bem. Eu tenho... pessoas..
- Pessoas? Você quer dizer amigos?
- Sim... Amigos.
Ele riu
- Filha, você sabe que você não precisa ser sempre tão impessoal, não sabe? Chamar amigos de pessoas! Só você! Onde quer que você esteja eu quero que você saiba que eu confio muito em ti. E que tem algo que você deveria fazer.
- O que? O que eu deveria fazer?
- Divirta-se. Você tem mania de levar tudo a sério demais. Você está em São Paulo?
- Obrigada pai. Foi um bom conselho. Mas, agora eu tenho que ir. Devo passar ainda um tempo viajando, mas logo eu ligo pra dar noticias. Beijos, pai. Te amo muito.
- Beijos. Te amo mais! Fica bem!
Eu desliguei o telefone e não consegui conter o choro. E me permiti chorar na frente do Senhor Ventríloquo. Eu temia o que isso podia fazer com ele. Eu estava sentada em sua cama, frágil, vulnerável. O que eu sentia era uma mistura de culpa, saudade, desejo e tensão. Eu chorava porque eu não era igual às garotas da minha idade. Chorava porque meus sonhos e meus desejos eram condenáveis. Chorava por que mentir para o meu pai tinha tirado um pedaço de mim. E também porque compreendia que na cultura em que eu vivia, alguém como eu dificilmente seria aceita e respeitada pelo que é. Uma submissa, jamais seria vista nesta sociedade como alguém normal. Especialmente uma que entrega seu corpo e sua dor, que faz e aceita que façam com ela tudo o que for necessário para que um homem perceba sua submissão. Aos olhos do mundo, eu era uma traidora da moral, uma rebelde, e, pior que isso, alguém que não pertence, não se encaixa, não cabe em nenhum rótulo ou previsão. Eu era uma estranha. E naquele momento, essa noção me fazia muito mal.
Senhor Ventríloquo tocou meu pescoço. Levantei a cabeça. Imaginei que ele fosse me deixar sem ar, mas ele apenas retirou de mim sua coleira. E me deitou em sua cama, ao seu lado. Essa noite ele passou comigo. Não houve sexo, e não houve dor. Mas conversamos sobre tudo que havíamos feito. Sobre a hipocrisia desse mundo. Sobre ele e sobre mim. E sobre o JOSHUA, também. Já era impossível não tocar no nome dele. E foi falando nele que eu adormeci nos braços do Senhor Ventríloquo, um ser humano fantástico e tão incompreendido quanto eu; um Sádico emocional eficiente e responsável. E toda a dor que ele já havia me trazido, essa noite inesperada curou. De manhã ele me disse:
- É hora de você voltar para o JOSHUA.
-Eu sei. Perdi a graça para o Senhor, não perdi? – eu sorri.
- Você bem que tentou – ele respondeu – Mas eu ainda teria dois ou três truques na manga pra ver sua carinha de choro.
- Então... Mas então por que...
Ele me interrompeu:
- O JOSHUA te quer de volta. Ele me disse que viria hoje.
- Ele vem? Vem por mim? Eu não acredito no que estou ouvindo!
- Não se anime tanto assim. Você não sabe o que ele tem pra te oferecer. Talvez não seja como você imagina. Agora vá se arrumar.
Tomei um banho rápido e quando retornei para o quando, o Senhor Ventríloquo já tinha partido. Em seu travesseiro, um bilhete endereçado a mim dizia “Encontre o JOSHUA na masmorra. V.”
Enquanto eu caminhava ansiosa, lembrava-me da suavidade de naya. Eu imitava seu jeito de andar, seu tímido e contido sorriso. Mas alguns passos depois eu já era eu mesma. Scarlet. Com meu andar confiante, minha alegria mais intensa, e um desejo mais forte do que eu, que já me controlava totalmente.
Ele já estava no hall. Me esperava ao lado do X de madeira. Ajoelhei-me a seus pés. JOSHUA ofereceu sua mão para que eu me levantasse. Eu me senti absolutamente entregue quando ele encostou-me na madeira. Li outra vez o mesmo texto: “Mea Culpa. Mea Maxima Culpa” logo acima do X. Mas agora essas palavras pareciam ter ganhado um novo sentido.
-Não olhe para trás – ele disse.
- Não vou olhar, Senhor.
Tudo me excitava. O ambiente pouco iluminado, o cheiro delicioso e inconfundível de couro, o toque frio do chicote, acariciando minhas pernas... E a respiração de Joshua em meu pescoço. Fechei os olhos. Então senti os primeiros golpes atingindo minha pele. Era incrível. Quando era ele quem me atingia, não havia separação entre a dor e o prazer. Tudo vinha dele. Tudo parecia perfeito. Poucas pessoas são capazes de entender o que eu senti.
Ouvi passos se aproximando. Alguém assistia à cena. Mas isto de forma nenhuma me afetou.
O som dos golpes era cada vez mais intenso. E ecoava por toda a masmorra. Eu tentava conter o meu desejo de puxá-lo pra mim e implorar para que me tomasse, ali mesmo, com a urgência de quem não consegue conter seus impulsos. Eu queria que ele soubesse que meu sexo estava molhado, que eu estava pronta, e que eu faria qualquer coisa que ele desejasse. Ele então segurou meus cabelos e disse em meu ouvido:
- Scarlet, eu sei o que você quer.
JOSHUA puxou minha mão para trás e deixou que eu o tocasse. Ele também estava pronto, tão excitado quanto eu. E essa constatação era tudo que eu precisava.
- Dono... me toca? Deixa eu me virar?
Mas então JOSHUA me soltou como se solta um brinquedo que não se quer mais.
- Dono? Eu nunca disse que eu era seu Dono. Ainda você não tem minha coleira em seu pescoço. E novamente se atreve a me chamar assim?
- Desculpa, Senhor. É que... O Senhor Ventríloquo me disse que o Senhor me queria de volta. Eu pensei que agora eu já...
- Vire-se – ele ordenou.
Então eu a vi. Ela estava aos seus pés, ajoelhada. Nua. E mais bela do que nunca. E em seu pescoço o nome JOSHUA brilhava.
A um simples comando de seu Dono, Angel o despiu. E beijou seu membro rígido. Ele se forçou na boca delicada de sua escrava que o sugava com avidez. Ela parecia saber exatamente como aumentar o seu prazer. E também quando parar para prolongar o momento e a minha tortura. Ela me olhava com ousadia. E fazia com ele tudo o que eu só poderia sonhar em fazer. Foi a ela que ele entregou seu gozo. Ela bebeu cada gota, com voracidade. Ele então mandou que ela nos deixasse a sós.
- Scarlet, eu preciso saber se você ainda quer continuar.
- Eu quero. É difícil me machucar hoje em dia – respondi.
- Que bom – ele disse – Mas importa que você tenha total consciência de que se quer pertencer a mim, o caminho será longo. E mesmo assim, não existem garantias. Tudo vai depender muito da natureza que eu encontrar em você. Mas não fique aí tão séria, criança. Hoje à noite haverá uma festa. Logo estaremos quase todos reunidos. Você tem pessoas para conhecer. Melhore esse rosto. Faça isso por mim.
JOSHUA arrumou meus cabelos com as mãos. Era impossível eu não me sentir grata por esse ínfimo, mas tão raro gesto.
Tony não demorou a descer. E logo a bela naya cuidou de que fossemos servidos. Após a refeição, os dois Senhores permaneceram no Hall do X e JOSHUA sugeriu que eu fosse ajudar naya com os afazeres.
A cozinha não era muito grande. Naya me apresentou a despensa, rapidamente. Mostrou-me onde encontrar taças de cristal de todos os tamanhos e formatos, louças para diferentes ocasiões, guardanapos de pano, bandejas, talheres e tudo o que podia ser necessário. Mostrou-me também a lista do que deveria ser preparado para a festa. Não era uma grande variedade, mas tudo parecia sofisticado e trabalhoso. Felizmente, naya era um tanto eficiente na cozinha. E logo nina e rebeca juntaram-se a nós, agilizando o trabalho.
- Naya, qual a ocasião? – perguntei.
Ela respondeu sorrindo enquanto preparava um suco.
- É o aniversario da minha Dona.
- Dona? Então entre os Sete existe uma mulher?
- Qual o problema nisso? Miss Catsy é mais apta a Dominar do que muitos homens.
- Não estou duvidando. É só que... Eu não imaginei. Estou realmente surpresa. BDSM pra mim ainda está muito ligado com o erótico, com o sexual.
Naya lançou-me um olhar quase ofendido.
- Ah, scarlet. Por que você pensa que servir outra mulher não pode ser erótico? É erótico. Eu também a sirvo sexualmente.
- Então você ...
Naya riu.
- Sim. Eu gosto de mulheres. Apenas de mulheres. Sempre foi assim.
Rebeca passou com taças nas mãos, por trás de naya, roçando seus seios nas costas dela, com um sorriso malicioso nos lábios e disse:
- É isso mesmo scarlet... e a naya vive se aproveitando das pobres e inocentes escravas heterossexuais...
Nina puxou o cabelo de rebeca:
- Comporte-se!
Olhei para naya. E começamos a rir.
- Não liga, scarlet. Se eu fosse tirar casquinha de alguém, com certeza não seria da becky, que é a mais sem sal daqui!
-Eu? Sem sal? Posso não ter seios lindos e imensos como os seus, mas tenho mais atitude do que você e a nina juntas.
- Então deixa eu entender – eu disse – a naya é lesbica. E vocês duas são heterossexuais?
As três riram. Nina explicou:
- Olha, nós servimos. Somos escravas. Nós vamos fazer o que nos for ordenado. Mas se você perguntar pra mim, eu não gosto de mulheres me tocando. Já a becky...
- A becky gosta de qualquer coisa! – disse naya.
- Mas e você? Scarlet... scar-let... Isso é nome de putinha ninfomaníaca.
-Becky! – disse nina- Já te falei pra não usar esses termos.
Eu ri. E demorei um pouco pra responder.
- Eu gosto de gente. Eu poderia amar um homem, ou uma mulher. Eu não limitaria meus sentimentos a um gênero. Mas atualmente, o sentimento que eu tenho em mim é submissão. Isso é maior até que o amor. Mais nobre. Menos egoísta. E é um homem que me tem.
As meninas aplaudiram, jocosamente.
Nesse momento, angel entrou na cozinha. E sua presença nos calou. Passamos o resto da tarde em silencio, eu, a bela naya, nina e rebeca, cumprindo as ordens de angel, que, eu descobri com o tempo, estava um degrau acima de nós na hierarquia das escravas dos Sete.
(continua...)

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

SETE- Parte 3 - Tony


Usar a coleira do Senhor Ventríloquo foi uma experiência desgastante pra mim. Depois de me usar pelo tempo que quis, ele me mandou pra casa e me instruiu para que esperasse ele entrar em contato. No dia seguinte, as nove da manha ele já havia me enviado um e-mail com algumas tarefas a serem realizadas. Tive que escrever pra ele, logo no primeiro dia, cinco relatórios. Cada um cobria uma área de minha vida. Ele também me enviou perguntas um tanto embaraçosas de responder. Pra ele, tudo importava. Desde o meu nível de instrução até uma descrição detalhada das peças de roupa que eu usava com mais frequência.
Nos três dias que se seguiram, por volta das 5 da tarde, eu recebia a mesma mensagem no meu celular. “Agora! V.”, dizia o texto curto e direto. Lembro-me que enquanto dirigia para o galpão, mais de uma vez precisei encostar o carro por alguns minutos, para me acalmar.
O Senhor Ventríloquo me explicou que agora eu não mais teria acesso ao galpão pela casa de JOSHUA. Além dela, no grande terreno sob o qual a masmorra se escondia, havia seis outras pequenas casas brancas, posicionadas na forma de um círculo. Eram sete locais de descanso e com um pouco mais de conforto e privacidade, para os sete membros da confraria. No centro do terreno, cercado pelas sete casas brancas, havia um extenso gramado, e em seu núcleo, um espaço cimentado e muito agradável, lembrando uma pequena clareira. A casa do Senhor Ventríloquo ficava à esquerda da casa de Joshua. A da direita pertencia ao Tony, que era o único dos sete que de fato ali residia. Ele passava mais tempo entre a masmorra e a guarita colada ao portão principal, mas não abria mão de ter um local só seu também, como qualquer outro integrante dos Sete.
Em cada uma das casas, uma escada levava a um túnel de acesso ao hall principal do galpão. Eu tinha recebido ordens para assim que minha entrada no terreno fosse permitida, dirigir-me à porta da casa do Senhor Ventríloquo e aguardar que ele a abrisse. Era o Tony quem abria o portão principal. A Rotina era irritante. Eu entrava, caminhava até a casa de número 3, e passava no mínimo vinte minutos aguardando que meu Dono viesse me receber.
Depois, ele mandava que eu me despisse e colocava a coleira em meu pescoço. Pela guia eu era conduzida até uma das salas da masmorra. O que se passava ali eram repetições do nosso primeiro e conturbado encontro, com pequenas variações. Era sempre doloroso e humilhante pra mim. Ele sempre me causava algum tipo de desconforto. Eu conheci a dor de ter clamps apertados em meus mamilos; de ter cera quente derramada pelo meu corpo... Isso não era o mais difícil. Eu tinha uma maneira muito particular de lidar com a dor. Aprendi que a dor tem um efeito estranho em mim. Mesmo odiando as mãos da qual ela vinha, eu conseguia encontrar certo conforto. Às vezes a dor corria no meu corpo como se me acariciasse. Havia um prazer inusitado. Eu já esperava por isso. Lembro de já ter me provocado dor em momentos difíceis. Ela sempre foi parte de mim. E muito mais uma aliada do que uma inimiga. Restava quase nenhuma dúvida em mim de que eu era uma masoquista. Mas eu nunca antes tinha tido a experiência que me garantisse que a dor poderia me dar prazer, mesmo que provocada por outra pessoa, que não eu mesma.
O pior de tudo era o que ele fazia com minha mente. Ele sempre dizia exatamente as coisas certas pra me fazer chorar. E ele adorava o meu choro. Minhas lágrimas o excitavam quase que instantaneamente. E ele sempre terminava seu pequeno show com o mesmo número, no qual eu não passava de uma escrava sexual sendo usada com sadismo. Por várias vezes cheguei a me perguntar se fazia algum sentido submeter-me a tamanha degradação em nome de um sentimento estranho por alguém que nem mesmo me queria. Mas a imagem do JOSHUA ainda reinava soberana no meu pensamento.
Meu Dono me mandava pra casa por volta das dez horas. Eu chegava, tomava um banho, e tentava inutilmente descansar. O sono não vinha fácil. O Choro sim. E quando eu finalmente conseguia dormir, eu acordava mil vezes no meio da noite, sobressaltada. No dia seguinte, eu levantava cedo, comia pouco e ligava o computador à espera de algum sinal do JOSHUA. Mas desde que fui entregue por ele a outro homem, ele não havia me procurado uma vez, sequer. Já o Senhor Ventríloquo nunca falhava em ordenar por e-mail que eu trabalhasse em algum relatório de sessão, ou respondesse suas perguntas invasivas.
Eu estava absolutamente exausta e foi por isso que no quarto dia eu me deitei um pouco, à tarde e adormeci. Quando acordei, meu coração batia acelerado. Já estava escuro. Passava das 20 horas. Joguei o cobertor pra longe e peguei meu celular no criado mudo. A mensagem estava lá. “Agora. V.”. E ela havia chegado novamente às 17 horas.
Me troquei o mais rápido que pude, entrei no carro e apressadamente me dirigi ao terreno. O Portão principal estava trancado, e o local, silencioso. Eu toquei a campainha diversas vezes até ouvir finalmente os passos pesados de Tony. Ele riu e falou comigo através do portão:
-Então a princesa resolveu aparecer? Tarde demais. É melhor você voltar pra casa.
-Não! Tony... Tony, por favor, me deixa entrar. Aconteceu uma coisa, eu não pude chegar antes.
-Eu fui informado de que poderia te deixar entrar às 17:30. Não às 21 horas.
-Eu sei... Eu não consegui. O Senhor Ventríloquo ainda está aí? Me deixa falar com ele. Eu preciso explicar.
Tony parou uns instantes, pensativo. Olhou pra mim como se olha para uma criança que acaba de fazer arte.
- Ok, a princesinha tem sorte. Seu Dono ainda está aqui. Mas ele está na masmorra. Eu te levo até lá. Siga-me.
Tony andava rápido. Eu, com meus saltos e meus passos pequenos, quase precisava correr pra alcança-lo.
Ele abriu a porta da casa branca de número dois. Era um cenário interessante. Móveis vitorianos com detalhes em madeira escura e esculpidos com belíssimas formas pareciam brigar com cadeiras em ferro, estilo “art nouveau “ provocando uma falsa sensação de caos divinamente projetada. O bom gosto de Tony podia ser controverso, mas era certamente corajoso e genial.
Chegando ao galpão, pude ver o paletó claro do Senhor Ventríloquo pendurado em um cavalete. Eu e Tony ouvimos o gemido de uma garota.
- É melhor você aguardar. Vem. Vou te deixar em uma das celas.
- O que? – eu disse, sem tentar esconder meu descontentamento.
-Não seja boba. Eu não vou ficar aqui o tempo todo cuidando de você. Alias, nem aqui fico. Não tem nada de interessante pra ver. Teu Dono anda precisando variar o roteiro – ele respondeu, já abrindo uma das grades de uma cela no hall principal e apontando para que eu entrasse.
- E você fala assim de todos os seus confrades? Com esse desdém todo? – provoquei, enquanto me ajoelhava para entrar na cela.
- Somos todos Sádicos, Dominadores, e alguns de nós são Dominadores e Sádicos ao mesmo tempo. Você esperava o que? Que eu elogiasse aquele terninho ridículo dele?
Eu estava surpresa. Ele continuou:
- Não se assuste. Um pouco de competitividade é estimulante no universo masculino. Isso não quer dizer que eu o odeie. Eu respeito muito o Senhor Ventríloquo. Respeito muito qualquer TOP daqui. E você devia me entender. O universo feminino só parece mais sutil. Mas a competitividade é ainda maior. Você mesma mal chegou e já tem um desafeto.
- Desafeto? Como assim, Tony?
- Ah, você não sabe ainda – ele riu - Isso vai ser divertido.
Tony trancou a grade da pequena cela em que eu estava e saiu do hall. Trocou algumas palavras com o Senhor Ventríloquo e voltou pelo corredor que levava até sua residência.
Não demorou até que meu Dono viesse falar comigo.
- Scarlet. Eu serei breve e direto com você. Alguém morreu? Você teve que socorrer alguém?
- Não, Senhor – respondi.
- Qual foi o motivo então, do atraso?
- Eu... Eu dormi, Senhor, e perdi a hora.
- Veja... Sendo assim eu não posso deixa-la sem uma punição.
Notei um breve sorriso em seus lábios.
- Sim, Senhor. Eu entendo.
Ele andou uns instantes pela sala. Eu, ainda dentro da cela, de joelhos, na meia luz da masmorra, via apenas metade de seu corpo, enquanto ele caminhava de um lado a outro, e continuava me informando de suas decisões.
- Eu li em um de seus relatórios que seus pais não moram no Brasil. É verdade?
- Sim, Senhor. Eles voltaram para a Irlanda no ano passado.
- Certo. E li também que você está de férias da faculdade.
-Sim, Senhor. É verdade.
- Pois bem. Como punição, você vai passar suas férias aqui. Assim além de puni-la, não corro mais o risco de ter que esperar por você.
Eu senti como se o ar me faltasse.
- Senhor. Mas eu não posso. Meus pais vão ligar em casa. Vão querer saber o que aconteceu comigo.
- Você liga pra eles e diz qualquer coisa.
- Mas eu não tenho roupas. Não trouxe nada comigo. Nem produtos de higiene. Eu quase não tenho nada na bolsa... E nem no carro.
- Não se preocupe. Posso providenciar tudo isso pra vc.
- Sim, Senhor – eu disse, assustada, mas sem argumentos para mais contestações.
- Você irá dormir na casa três. Sem correntes ou algemas. E ficará com um jogo de chaves em seu poder. Mas assim que você ouvir o despertador, descerá para a masmorra e entrará nesta mesma cela em que está agora. Sempre que o Tony puder estar no galpão ele irá trancá-la e você ficará presa em sua cela. Caso seja necessário que você ajude em alguma coisa no terreno ou na masmorra, o Tony te avisará.
Olhei a minha volta. A cela mais parecia uma jaula. E eu, um animal, acuado e confuso, cada vez mais distante da imagem que eu tinha de mim mesma.
Passei a noite sozinha na cama quente e confortável do Senhor Ventríloquo. Tomei um banho demorado em seu chuveiro. Sequei-me com suas toalhas macias. Comi algo de seu frigobar e assisti a um filme de sua coleção. Ele me deixou completamente à vontade ali. E disse que em sua ausência, eu seria responsável pela casa. Brinquei dizendo que eu podia fazer uma bagunça ali. Ele respondeu que eu podia fazer o que quisesse, mas se algo o incomodasse, ele saberia exatamente como me punir. A casa estava segura comigo.
Dormi bem. Descansei tudo o que precisava. O despertador tocou às 8 da manhã. Imediatamente, desci as escadas e caminhei pelo corredor até chegar à masmorra, e entrei em minha jaula escura, fria e apertada. O contraste entre a noite e o dia era uma tortura maior do que passar o tempo todo ali.
Tony não demorou pra descer.
- Bom dia, princesinha. – ele disse, enquanto trancava a porta de minha jaula.
Não respondi. Tony permaneceu no hall, fazendo alguma coisa em seu notebook e fumando compulsivamente.
Eu, quieta e encolhida, esperava o tempo passar e lembrava-me do JOSHUA. Não o JOSHUA frio e distante que havia me rejeitado, mas o homem brilhante, o guia, o mentor que eu havia tido, por tanto tempo, me explicando e me conduzindo pacientemente em um mundo desconhecido e encantador.
Percebi que alguém entrava no galpão. Ouvi seus saltos batendo e as vezes até mesmo raspando no solo. Tony a cumprimentou.
- Bom dia, angel. Que você veio fazer aqui?
-Vim ver a garota. Onde ela está?
Tony apontou para a minha cela.
Angel curvou-se pra falar o que queria, olhando nos meus olhos.
- Eu não disse pra você entender que você não pertencia ao JOSHUA? O que eu digo pra você, pelo jeito, não faz a mínima diferença, não é?
Eu não sabia o que dizer. E havia aprendido com meu pai que quando a gente não sabe o que dizer, é melhor não dizer nada. Mas aparentemente a minha mudez a enfureceu ainda mais. Ela parecia estar a ponto de arrancar os próprios cabelos.
- Escuta, garotinha mimada, você pensa que vai ter tudo o que quer. Mas não vai. Não se eu puder impedir. As coisas por aqui não funcionam assim.
Tony a interrompeu
- Angel, o JOSHUA sabe que você está aqui?
- Isso é entre eu ele – ela respondeu
- Eu acho melhor você voltar pra cima.
- Tony! Isso não é justo - ela esbravejou. - Você sabe que eu faço tudo pelo JOSHUA. E agora ele fica todo encantado porque chega uma garota do nada e aceita servir ao Senhor Ventríloquo! Eu tinha que dizer pra ela que se ela pensa que vai jogar com ele, é melhor ela abrir os olhos. É bem melhor ela se por em seu lugar. Ou vai ter uma grande inimiga.
- O JOSHUA está encantado comigo? – eu perguntei, sem conseguir esconder o sorriso.
Os dois me olharam.
- Hey, scarlet, você não está ajudando – disse o Tony, e olhou para a angel – E você, suba agora mesmo!
- Ah, você agora dá ordens pra escrava do JOSHUA? – ela disse, com arrogância.
- Pois bem, se quer ficar, fique. Vai ser um prazer contar pra ele que você esteve aqui sem autorização.
Ela estalava os dedos, irritada e tensa. Permaneceu ali por mais alguns segundos, em duvida. Finalmente decidiu subir. E deixou-nos novamente a sós.
Tony ficou em pé, com ar de riso, aguardando que ela se retirasse. Cruzou os braços demonstrando clara indignação pela atitude de angel. E só relaxou quando o irritante barulho dos saltos sessou completamente.
- Ah, as loiras! Princesinha, o que você faz quando uma loira te joga uma granada?
- O que?
- Puxa o pino, e joga de volta pra ela!
Nós dois rimos. Eu, de dentro da cela. Ele, voltando a digitar no computador.
Por uma meia hora, permanecemos ali. Sentia-me profundamente entediada e desconfortável. O silencio me fazia mal. Eu questionava minhas decisões. Eu questionava as atitudes daquele a quem eu de fato pertencia. Mas então me lembrava das palavras da angel. Eu o tinha agradado. JOSHUA estava positivamente surpreso por eu estar ali. E isso tornava tudo mais fácil de suportar. Mesmo assim, eu estava inquieta.
- Tony, não tem nada que eu possa fazer? Você deve estar com fome. Tem algum lugar onde eu possa ir comprar algo?
- Não. Não há necessidade. E tem local, aqui em baixo, pra preparar as refeições. E depois, a naya está aqui essa semana pra cuidar disso.
-Quem é a naya?
- Escrava de um dos Sete. É bom você se acostumar com o ambiente. Não vai ter muita chance de sair daqui tão cedo...
Eu passava as mãos pelos cabelos, ansiosa.
- Eu sei. Eu sei, Tony. É só que é tão quieto por aqui.
- Nisso eu posso ajudar – ele disse – gosta de música?
- Quem não gosta? –eu respondi – Quer dizer, depende do tipo de musica...
Ele pôs um barulho qualquer pra tocar. Eu ri do seu gosto musical. Ele pareceu ofendido. E falou uns quinze minutos sobre tudo que gostava de ouvir. Em geral, gostávamos das mesmas coisas, exceto pelo fato de ele se prender um tanto em bandas de rock experimental falidas. Ouvimos vários clássicos. Cantamos alguns deles juntos. Até discutimos algumas letras. E assim fomos, manha adentro, do metal ao alternativo, do punk ao pop rock, e ele continuava, revelando um ser surpreendentemente sensível que morava escondido atrás de suas rudes feições. Por algum tempo, eu esqueci que era uma escrava jogada em uma jaula qualquer. Eu estava realmente me divertindo. E eu sentia como se tudo isso criasse um laço de amizade entre nós. Ele se dava a conhecer. As pessoas expõem muito do que são quando falam daquilo que admiram. E eu também permitia que ele me entendesse um pouco mais.
- Ouve essa – ele disse – é sobre BDSM.
Eu ri.
- Não. Não é. Isso é “bad”, do U2. É sobre cocaína.
- Pra mim, é sobre o que eu quiser. E eu quero que seja sobre BDSM.
Sorri. Isso refletia muito de seu jeito alitúrgico e independente de pensar. Eu senti que eu e ele poderíamos nos tornar grandes amigos algum dia. Mas então ele mexeu novamente no computador e disse:
- As arrecadações não andam bem...
E abriu a porta da jaula. E me puxou pra fora dela.
- Deixa eu olhar você... Você devia ter descido nua, você sabe, não é?
- Tony? O que você está fazendo?
Ele tocou a minha coxa. E foi tirando minha roupa, como se eu fosse um boneco qualquer.
- Tony. Pára. Por que está fazendo isso?
- O Ventríloquo disse que se eu precisasse eu poderia. A arrecadação está baixa... Eu acho que tenho um trabalhinho pra você.
Tony colocou sua máscara e me levou para uma sala da masmorra. Ali, além de uma cama relativamente grade, suspensa por correntes, havia alguns computadores e um equipamento de filmagem. Ele os ligou, um a um. Uma luz forte foi virada em minha direção. Cobri os olhos com as mãos. Ele então ligou a câmera, conectada a um dos computadores.
- Não se preocupe. Não vou filmar seu rosto.
Então percebi do que aquilo tudo se tratava.
- Não. Tony, eu não quero. – eu disse, firmemente - O JOSHUA me disse que não seria feito nada que não fosse consensual. Eu não quero ser filmada. Eu não quero minha imagem na rede. Isso eu não aceito.
- Tudo bem – ele disse- Mas você entende que eu terei que te levar pra fora do terreno, e não de volta a sua cela, certo?
- Como assim? Eu não quero ir embora. Eu só não quero ser usada pra isso.
- Mais alguma exigência, princesa? Entenda, aqui você não faz as regras. Aqui você é escrava. Você tem sim, o direito de entregar sua coleira a hora que quiser. Mas se ficar, você faz o que for determinado. Não fosse assim, qual seria a diferença entre uma escrava e uma namoradinha baunilha? Você aqui não é namorada de ninguém. Então decida. Fica e se submete. Ou exerce seu direito de não ser mais escrava, e vai embora.
Fiquei muda alguns instantes. Tony pegou uma máscara da prateleira e jogou pra mim.
- Coloca isso. Vou checar o que eles querem ver hoje.
Eu pus a máscara negra no meu rosto. Era inútil mentir pra mim mesma. Eu não ia sair dali. Ia ficar enquanto o JOSHUA quisesse que eu ficasse.
Enquanto digitava, Tony me explicou que não era qualquer pessoa que tinha acesso ao site que ele dirigia. Apenas conhecidos do JOSHUA. Fetichistas em geral, pessoas que apesar de não terem sido escolhidas como membros do seleto grupo dos Sete, tinham um perfil aprovado para assistirem algumas das práticas. Todos eles contribuíam para que os vídeos continuassem sendo gravados. Eram, em sua maioria, empresários, administradores ou ainda profissionais liberais bem sucedidos o suficiente para deixar, todo mês, significativa contribuição. Eles não sabiam do grupo e nem de suas regras, mas conheciam o fato de que existia um local que reunia todos os recursos para que eles pudessem ter contato visual com suas fantasias. Muitos dos que assistiam aos vídeos, não teriam a coragem suficiente para assumir e vivenciar seus maiores desejos. Assistir aos vídeos era o mais perto que eles chegariam de sua satisfação.
Havia 15 pessoas online. Na tela, Tony pôs o meu nome e fez aparecer vários nomes de práticas. Os users começaram a votação. Em poucos minutos, o aplicativo mostrava o resultado.
- Asfixia erótica... interessante... faz tempo que não pedem por isso.
Tony não falou muito. Estávamos os dois mascarados, mas eu notei a transformação no seu olhar enquanto ele colocava com rapidez e precisão, clamps apertados nos meus mamilos. Não era a primeira vez que isso era feito em mim, mas o Senhor Ventríloquo costumava se satisfazer em apenas coloca-los. Tony os puxava pela corrente que os unia. A dor era intensa e indescritível. E ele não parava até que eu tivesse a sensação de que minha pele iria se romper de tanto que ele a esticava. Ele me empurrou para a cama e mandou que eu deixasse as pernas abertas. Meus tornozelos foram amarrados. As cordas foram presas em ganchos nas paredes da sala, de forma que era impossível que eu reaproximasse meus tornozelos. Também meus punhos foram envoltos por cordas, e presos da mesma forma. Meu corpo formava um X e eu estava tão vulnerável quanto era possível alguém estar. Tony tomou a câmera em mãos e filmou meu corpo, totalmente exposto. A sensação de estar imobilizada e indefesa fez meu coração disparar. Eu senti que o pânico tomava conta de mim. Eu tentava inutilmente me soltar. Eu não pensava mais. Eu reagia, como reage um animal na iminência do ataque. Ví que Tony sorria satisfeito enquanto filmava meu desespero. Após alguns minutos, ele saiu do meu campo de visão, fazendo crescer meu medo. Eu gritava por ele. Eu pedia pra ele voltar. Pra não me deixar sozinha ali. Eu chorava e implorava por ele. Pior do que estar presa, era o medo de ser deixada alí, sem ter alguém pra me defender dos inúmeros riscos e perigos irreais que atormentavam minha mente.
Ele então voltou, já sem suas roupas e soltou as cordas que prendiam minhas pernas. Eu com elas, o puxei pra mim e cruzei os tornozelos em suas costas.
-Solta minhas mãos... por favor, Tony. Por favor...
- Não. Gosto delas assim.
-Então fica... fica comigo... não sai daqui... não me deixa...
Eu o apertava entre minhas pernas, como se quisesse seduzi-lo. Meu corpo, quase inconscientemente se movia contra o dele. Eu queria senti-lo perto, muito perto. Eu queria sentir qualquer coisa que tirasse a minha mente do fato que eu estava presa àquela cama e que ele podia, a qualquer momento, deixar de ser minha única proteção. Eu precisava ser desejada. Eu precisava que ele desejasse muito estar ali. Eu apertava meu sexo contra o dele como quem implora. E o olhava com desejo. Eu não fingia. Apenas me perdia entre o que era pânico e o que era vontade. Tudo se fundia.
- Eu te quero! – eu disse - Eu quero te sentir em mim.
Ele atendeu meu pedido. E eu senti um súbito prazer. Um prazer estranho e obscuro. Eu era uma escrava. Se eu tivesse implorado para ele se afastar, ele provavelmente não teria me dado ouvidos. Mas seja ou não por uma defesa minha, eu me entreguei ao instinto. A volúpia podia ser minha única opção. Mas foi isso que senti enquanto ele se divertia no meu corpo. E quando ele pôs sua mão pesada no meu pescoço, me sufocando, pouco a pouco, o prazer apenas aumentou. Eu tentava inutilmente puxar o ar, que não mais vinha. Ele apertava meu pescoço com firmeza. Eu estava quase em transe. E o gozo que eu senti, era do tipo que começa na mente, se espalha pelo sexo e pelo corpo todo, devagar, até que enfim explode, causando espasmos e longas contrações involuntárias... Meu rosto estava quente e provavelmente corado. Eu estava atordoada. Algumas lágrimas escorreram molhando minha máscara. Ele gozou junto comigo. Olhando nos meus olhos, absolutamente embriagado pelo estado em que ele havia me deixado.
Depois ele desligou a câmera. Olhou para a tela e sorriu.
- Acho que depois disso não teremos muito problema com as arrecadações desse mês.
Eu sorri também.
Ele se aproximou e tirou nossas máscaras. Deitou-se do meu lado e me abraçou. Eu encostei meus lábios nos dele. Ele então me beijou longamente.
- Tony... posso te pedir uma coisa?
- Peça!
- Desamarra meus pulsos...
Ele riu. E me libertou. Eu sentei na cama.
- Fica comigo aqui um tempo – ele disse.
- Não – respondi friamente – Já fiz o que eu tinha que fazer. Agora me leva pra cela. E me tranca.
- Pensei que você tivesse gostado...
- Eu gostei. E agora acabou. Eu também pensei que você tivesse gostado de nossas conversas.
- Eu gostei – ele disse.
- E quando elas acabaram, você me trouxe pra cá e me amarrou.
- Eu fiz o que eu tinha que fazer.
- Ótimo! Agora faça outra vez o que você tem que fazer. Me leva pra cela como o bom e obediente servo que você é. Ou eu vou adorar contar pro Senhor Ventríloquo que você me manteve na cama mais do que era necessário.
Tony me olhou perplexo, quase machucado, por alguns instantes. Depois sorriu e eu vi uma certa admiração em seu olhar.
Enquanto ele trancava a cela, o interfone tocou.
- Fala, Ventríloquo! Sim... Sim, tudo certo por aqui. Mas devo dizer que ela tem uma personalidade igual à dele. Talvez até melhor. Foi uma escolha incrível. Ok... Pode deixar.
Quando Tony desligou, eu precisei perguntar.
- Eu sou igual a quem? Ao JOSHUA, não é?
Tony riu.
- Talvez. Mas quer saber, princesinha. Isso é péssimo pra você. Isso quer dizer que você nunca será dele.
(continua...)
 
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