domingo, 19 de julho de 2009

Complexo de Complexidade...


Tenho um amigo que costuma dizer que cada pessoa tem um número limitado de assuntos que se revezam em seu discurso. E cada um, em cada conversa que tem, acaba sempre dando um jeito de levar as discussões para essas suas questões eleitas. No meu discurso e em meu pensamento, com freqüência está o tema das contradições humanas. Esse tipo de análise me fascina, e de uma forma ou outra, acabo sempre observando e ressaltando esse aspecto nos seres.

Outro dia reparei que dois dos meus autores favoritos, homens célebres e respeitados, também tinham suas contradições.
Diz a lenda que as ultimas palavras de Álvares de Azevedo foram: “Que lástima!”. Também é dito por estudiosos da vida de Machado de Assis, que ele morreu de tristeza, incapaz de lidar com a morte da esposa, Carolina.

Álvares e Machado. Um grande Romantico e um grande Realista, respectivamente. Sim, é verdade que Machado de Assis teve um pezinho no Romantismo, mas quem o ama como eu amo, e conhece um pouco mais a fundo sua obra, tem que concordar que ao render-se ao Realismo é que ele passou a escrever com a propriedade de quem acredita no que defende. E Álvares, o poeta da morte, do sombrio, fascinado por termos e enredos fúnebres, é indiscutivelmente um ótimo representante do movimento Romantico.
Sendo assim, me parece muito curioso o fato de que ao ver-se finalmente face a tão idolatrada morte, Álvares tenha se lamentado. Mais curioso ainda me parece o fato de Machado, desertor do Romantismo e Realista até o último fio de cabelo grisalho, tenha “morrido de amor”.

Concluo disso então: Contradição, se é bom pra eles, é bom pra mim!

E fico mais em paz sabendo que estou em tão boa companhia, quando me vejo perdida, pintando pontos de interrogação e desconfiando de textos por mim mesma escritos. Torço o nariz, muitas vezes, pra minhas próprias certezas (certezas?). Revejo e ponho em xeque, muitas de minhas próprias convicções (seriam elas então convicções?).

Só tenho relutância em ferir os meus princípios. Esses eu luto pra manter intactos. Esses permanecem, mesmo quando a ideologia na qual creio enfraquece em mim (obra da vida). Pois meus princípios não são construídos com base na ideologia que sigo. O que ocorre é o contrario. São meus princípios que me mostram no que me faz sentido acreditar, e no que me é impossível aceitar. Mas pequenas contradições, eu me permito. E ainda ouso dizer que é impossivel a qualquer pessoa com um mínimo de complexidade, fugir a longo prazo de cair em pequenas contradições. Eu me gosto assim, complexa. Não me importo de pegar atalhos inusitados, nem em vez por outra, sair do meu “normal” e surpreender. Vejo isso como um passo importante no nosso processo de aprendizado. As vezes sou criticada por isso, mas nem as críticas tem poder de tirar de mim o prazer de repensar, reconsiderar e de mudar de idéia cada vez que eu tiver bases sólidas pra crer que eu estava errada. Acaba que eu também escolho meus amigos dando preferência a pessoas complexas, cheias de vida e de magia, pessoas que anseiam por transformação e aprendizado, pessoas grandes demais pra se resumir numa verdade sem suaves incoerencias. E essas são capazes de entender, ou ao menos, tolerar os meus repentes. Afinal, pra elas também, o mundo é cheio de nuances. Não há nada mais enfadonho do que viver em um mundo que seja sempre tão preto no branco.
=)

2 comentários:

{diva_elfa}AL disse...

tavi, gosto dessa frase de Ghandi:

"A minha preocupação não está em ser coerente com as minhas afirmações anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a verdade."

Eu creio na inconstância, na mutação, na evolução. O que hoje é absoluto, amanhã pode ser indiferente. O que p/ mim é certo p/ você pode ser duvidoso e amanhã o contrário.

Minhas certezas são mutáveis por sermos coerentes aos meus princípios e baseada nisso, repenso, mudo, acato, discordo.

Eu não penso quando escrevo, rs, mas escrevo, depois leio, discordo, me acho louca, rs, mas assim mesmo, escrevo, falo, grito, e assim, me sinto viva.

Eu adoro pessoas complexas, rs, me ensinam muito...

parabéns pelo belo texto
beijos carinhosos
diva

tavi disse...

{diva_elfa}AL,

pois é... como evoluir se ficarmos presos a ideias anteriores?
As vezes acho que nos meus textos mais complexos, ou mais loucos, em certos aspectos, tu é uma das poucas pessoas que me entendem. Beijos mil!

tavi