segunda-feira, 7 de novembro de 2011

SETE



SETE

PARTE I - O Teste

A fantasia e a realidade caminham juntas. Nossas escolhas são todas impulsionadas pelo mundo secreto de sonhos e expectativas que existe em cada um de nós. Não falamos muito dele. Muitas vezes fingimos satisfação com o que é real e concreto, porque amamos a boa repercussão de nosso trabalhoso marketing pessoal. Mas lá no fundo, em alguma esquina escura de nossas mentes, sabemos que cada pequena decisão tomada, é na tentativa de ficarmos um pouco mais perto daquilo que é tão grande, tão ousado e tão inovador, que teríamos certo constrangimento em assumir como nosso maior desejo ou objetivo.

E se eu te dissesse que no coração do que conhecemos como o meio BDSM, há sete pessoas que assumiram seus desejos mais intensos e criticáveis, e que, juntas, elas reuniram recursos e apoio suficiente para transformarem suas fantasias em realidade? Você acharia que estou mentindo?
Seja como for, essas pessoas existem. Se são reais ou apenas personagens de uma trama, fica somente a teu critério. O quanto de verdade ou de ilusão estão contidas nas linhas deste relato, não me foi permitido revelar. A minha atribuição limita-se a simplesmente narrar, com fidelidade, o que tenho vivido nestes últimos anos. É possível que alguns nomes tenham sido trocados. E é claro que o que escrevo é sempre limitado pela visão através da minha própria lente. E o que você enxerga no meu texto é criação sua. Ainda que cada linha tenha realmente acontecido, você verá apenas o que escolher. Há realidade em cada ficção. Há ficção em cada verdade. E não existe nada absoluto no mundo que conhecemos.


**
Eu pertencia ao JOSHUA. No meu pescoço não havia coleira. Eu nunca havia nem dito nada a este respeito, mas eu sabia que eu era Dele. O meu quarto estava iluminado apenas pela luz do computador. Ele mandou que eu aceitasse a chamada de vídeo.

A imagem estava escura. Aos poucos percebi que se tratava de um galpão.

Pelo fone, a voz inconfundível:

- Tem certeza que você quer ver?

- Quero! – respondi imediatamente. Eu estava bem orientada. Eu sabia que seria um caminho sem volta. Eu estava certa do que eu queria.

A câmera foi virada em outra direção. Eu pude ver a silhueta rude de um homem que andava para longe da minha visão. Ele estava sem camisa e vestindo uma calça escura. Era um homem pesado. Conforme ele caminhava de volta, reparei no excesso de pelos e senti um certo asco. Ele trazia consigo, puxada por uma guia, uma mulher magra e delicada. Tinha cabelos loiros e lisos. Estava totalmente nua. Era bonita, pelo que eu podia ver. Ela rastejava no chão áspero, seguindo aquele homem estranho.

Em sua boca, notei uma mordaça simples e aparentemente bem apertada.

O homem, de forma bruta e com movimentos rápidos, a segurou pelos cabelos e a deixou de joelhos.

- Pode parar, Tony, aí mesmo – disse a voz suave e decidida de JOSHUA. – Agora aguarde o meu comando.

E então, ele me disse:

- O nome dela é angel. Achei que ela seria a pessoa perfeita pra você observar. Ela está aqui porque quer. Teve escolha. Você acredita em mim?

- Claro. Nunca duvidei de suas palavras.

- Ok... Agora quero que você me fale novamente de seus fetiches. Você disse que gostaria de sentir o peso da minha mão no seu rosto, não disse?

- Sim - eu respondi.

Ví que Tony balançou a cabeça positivamente, como se acatasse uma ordem de JOSHUA. Ele levantou o queixo da garota e eu pude ver seus olhos claros e incomuns. Em seguida, um tapa atingiu a face delicada. Depois mais um. E mais outros dois vieram.

- Você também disse que queria saber como seria um spanking. Que apenas tinha visto fotos, nestes sites que você frequenta, não é mesmo?

- Sim... sim, eu disse, mas...

Antes que eu pudesse terminar a frase, Tony puxou a garota pelos cabelos, a debruçou em uma mesinha e se ausentou. Retornou depois com uma palmatória de madeira nas mãos. Vi quando angel mordeu os lábios. Deve ter sido depois do quarto ou quinto golpe. Eu já estava ofegante... Eu não sabia se era certo eu continuar olhando. Mas eu não conseguia nem mesmo desviar o olhar da tela, por um segundo que fosse.

- Eu quero que você goze pra mim enquanto assiste – JOHSUA falou.

No mesmo instante, deixei minha mão escorregar pela coxa até que eu pude sentir o quanto eu estava molhada. Eu via aquela garota frágil e delicada recebendo os golpes... sua pele ficando vermelha e marcada. Eu via o prazer nos olhos do estranho homem que executava sua pena... E eu sabia que o grande Juiz, aquele a quem eu pertencia, tinha feito de mim seu júri, e apenas uma palavra minha poderia libertá-la da dor.

Na medida em que os golpes continuavam, eu me sentia cada vez mais perto do gozo. Eu podia ouvir os gemidos da garota, abafados pela mordaça, se intensificando. Poucas vezes eu havia me sentido tão excitada. Eu me tocava de um jeito mais forte que de hábito. Meu prazer e os movimentos do meu corpo, tudo em mim era mais forte e mais real.

- Põe o microfone mais perto da sua boca. Eu quero te ouvir – ele disse
E eu fiz o que ele mandou... E continuei.

- Continua e me ouve. Agora vou te dar uma escolha. Você manda a cena parar e te passo o endereço daqui. Sei onde você mora. Estamos bem próximos. Em pouco tempo você pode estar aqui e vai finalmente me conhecer. E eu vou fazer com você o que você tanto me pediu. Exatamente como o Tony está fazendo com a angel agora.

Tony agora a açoitava com um chicote um pouco mais longo. E entre um golpe e outro ele a tocava.

- A escolha é sua. E você tem dois minutos para fazê-la. Mande o Tony parar tudo e venha pra cá, pra ser usada por mim. Ou então você pode continuar vendo e dar mais ordens. E tudo que você mandar, ele fará, com ela.

Eu não conseguia pensar direito. Por mais de um ano eu me sentia e agia como uma escrava para o JOSHUA. Mas ele nunca tinha marcado um encontro comigo. Por várias vezes eu havia pedido. Ele sempre me dizia que não era hora. Minha dedicação havia sido imensa. Se ele mandasse, eu não dormia apenas pra satisfazer os seus desejos. Nunca fingi. Nunca priorizei a mim e ao meu prazer.
Mas os gemidos daquela garota, e o poder que ele tinha entregue a mim, eram extremamente sedutores.

- 30 segundos. Escolha! Agora! Não pare de se tocar e escolha.

Eu não sabia o que fazer. Eu estava tão perto de um orgasmo.... E foi um ato totalmente impulsivo que me fez dizer:

- Tony... Tony.... eu quero que você vire a angel pra câmera, para que eu possa ver os olhos dela enquanto você a usa com força.

Tony olhou para o JOSHUA, que consentiu com um aceno de cabeça. Então ele sorriu pra câmera, e fez exatamente como eu tinha ordenado. E ele foi tão bruto quanto eu tinha imaginado que ele seria. Ele a penetrou de uma vez, sem nenhuma preocupação. E eu pude ver os olhos molhados de angel. Ela era realmente linda. E realmente delicada. E o sofrimento a deixava ainda mais desejável. Eu não pensava em mais nada... eu só apreciava cada movimento. E os nossos gemidos se fundiram. E eu me sentia tão quente por dentro... E o melhor gozo que eu tinha sentido até então, tomou conta do meu corpo inteiro...


**


Passaram-se duas semanas da chamada de vídeo. JOSHUA nunca tinha ficado tanto tempo sem entrar em contato comigo. Eu não podia telefonar. Eu não me atreveria. Mas já estava ficando impaciente. E eu sabia que isso tinha alguma coisa a ver com a minha decisão.

Na sexta feira, por volta das 4 da tarde, eu estava vendo um filme antigo quando a campainha tocou. Quando eu abri a porta, uma garota sorriu pra mim. Eu levei menos tempo pra reconhecer do que pra acreditar...

- Angel? É você, não é?

- Oi. É um prazer te conhecer!

Fiquei parada por alguns segundos.

- Eu posso entrar? Não vou ficar muito tempo...

-Pode, claro. Entra.

Eu estava absolutamente desconfortável, mas ao mesmo tempo aquela visita era bem interessante. Ela olhou em volta como se fizesse notas mentais do que via.

- Você está lendo Sade? – ela perguntou, folheando o livro que eu tinha deixado em cima da mesa.

- Sim...

- Faz sentido – ela sorriu. E sentou-se no sofá ao meu lado.

- Olha, eu queria te pedir desculpas sobre aquela noite... Eu não sabia muito bem o que eu podia pedir...

-Pedir? –ela riu. Você não pediu nada pra ninguém. Você deu sua ordem com segurança.

-É. Na hora eu me senti segura, mas eu não queria te machucar.

-Me machucar? Você realmente acha que era eu quem estava sendo torturada ali? Não seja boba. Eu fui parte. Mas quem estava sendo torturada ali era você.

- Eu? Do que você está falando?

- Ah, foi claramente um jogo sádico do JOSHUA com você. Ele te fez escolher entre dois dos seus maiores desejos. Eu diria até que foi um teste.

-Um teste? Teste de que?

- Garota, você é o que a gente chama de SWITCHER no meio. Switcher é quem tem as duas tendências. Dominação e submissão. Se bem que o teu caso está mais pra Sadismo e masoquismo...

As palavras dela me feriram imensamente. E me irritaram também.

- Eu estou familiarizada com o termo. E eu não sou switcher. Eu sou submissa. Já faz tempo que eu tenho obedecido a todas as ordens do JOSHUA.

- Bem, eu o obedeço há cinco anos, desde que nos casamos. Isso sem contar os anos de namoro.
Eu fiquei perdida. Se angel era a esposa do JOSHUA, como ele pode deixar o Tony fazer tudo aquilo com ela?

- Desculpe. Eu, não sabia.

- Não tem problema. Isso não importa. Mas pro seu bem, pra você não sofrer depois, é bom você entender que o JOSHUA não é seu Dono. Ele é, por enquanto informalmente, o seu mentor. É bom que você o obedeça. Ele é autoridade máxima entre os Sete. Não por ele ser Dono de todos, mas porque todos reconhecem o conhecimento e o discernimento dele.

-Os Sete? Os sete o que?

-Olha, eu não estou aqui pra te explicar tudo. Na verdade eu só vim te entregar uma mensagem.

Angel tirou da bolsa um bilhete e me entregou. Abri imediatamente. Dentro dele, estava escrito um endereço, uma data e um horário.

- Você vai?

- Sim. Sim eu irei. – respondi prontamente.

- Ótimo. Eu já estou indo então.

E antes de sair pela porta, ela virou-se novamente pra mim e disse:

- Você deve ser muito especial.

Eu sorri. E perguntei:

-Você vai estar lá?

- Eu não sei. Eu nunca sei. – ela respondeu. E atravessou a rua.

Fechei a porta. E sorri. Eu iria finalmente conhece-lo.


(continua...)

 Licença Creative Commons (alguns direitos autorais reservados)




4 comentários:

Pamina disse...

Até eu, que não sou switcher nem nada, fiquei bem confusa quanto ao que decidir...rs.

µrsiŋђα Ѽ  disse...

Amei a postagem...
pra que decidir... pra que definir...
mude e remude... viva...

bjs de mel
ursinha

tavi de ÁSGARÐ disse...

Pam, deve ser seu lado voyeur... ou será uma veinha sádica? rs

Beijos mil! Contente de vc ter lido!

tavi de ÁSGARÐ disse...

Ursinha,

Que bom que gostou.
Quero ver se hj ou amanha eu posto a parte 2 aqui!

Beijos

tavi